a maravilhosa descoberta

Para Iris

Brilhava um pontinho adiante, que ela tentava definir a cor. Não sabia ainda que o nome daquilo que ela estava tentando identificar era a-zul. AZUL. Ela gostava do colorido do azul. Esticava os dedinhos e mexia os labiozinhos como quem dissesse UAU. U-au. E em todo o entorno não tinha nada mais interessante e super bacana que a bunda azul do ursinho de pelúcia, ali do outro lado do berço. Ela, de bruços, batia as perninhas como quem chegasse mais perto. Agitava os bracinhos na ânsia de aquilo lá não escapar. Queria pegar a bunda do ursinho. Não sabia que era uma bunda, nem que era um ursinho. Mas achou mesmo aquilo ali super super ultra mega sensacional. Não sabia que era azul da cor das águas onde ela provavelmente amaria estar, dali há alguns meses. E nem imaginava que metade da família já queria transformá-la em campeã de natação – porque agita aquelas perninhas com tanta veemência que se estivesse na água chegaria do outro lado da piscina num piscar de olhos. Sim, dali há alguns dias o grande segredo será descoberto: ela vai entender que tem uma forcinha, um motorzinho dentro de si, que vai fazer com que aquelas perninhas a levem onde seus olhos já chegaram bem antes e então ela vai conseguir – sim – chegar até o traseiro azul do ursinho, ali do outro lado do berço, sozinha da silva. E quando isso acontecer, vai haver uma comemoração tamanho gigante, de todo mundo que está ao redor do berço, de olho bem aberto, prestando atenção e observando cada pequena conquista deste grandioso ser. Na real, toda a galera ali em volta, envolta no centro do berço como se ali fosse um relicário, uma arena, Brazil e Itália em campo, Santos e Corinthians, queria mesmo era ver as coisas por aí com esse brilho curioso nos olhos, como se fosse a primeira vez, como se fosse um bebê olhando para o seu ursinho de bermuda azul, a coisa mais legal que existe no mundo agora.

Reflexões sobre ensaios de retratos

Há algum tempo eu me dei conta de que no meu Instagram de fotos não havia nenhuma foto de uma mana negra. Eu adoro chamar as mulheres de manas. Mas comecei a sentir vergonha de, no meu feed, só se ver modelos brancas. Uma das vergonhas que mais me incomodaram ao sentir, daquelas que vão crescendo até a gente resolver o problema. Eu busquei mudar isso o mais rápido que pudesse e a primeira experiência (pretendo ter outras) foi com duas manas, a Paty e a Thaís.

Foi um dia incrível, uma experiência incrível sobre se gostar, se respeitar e sobre sororidade. Não sei o que deixou estas fotos tão incríveis, mas acho que foi uma mistura da personalidade e altivez delas duas com a minha imensa – IMENSA – vontade de fotografá-las. Eu tive uma aula.

Chamei a segunda modelo seguindo a minha intuição, porque a ideia inicial era fazer o ensaio só com uma. Massss como eu tinha selecionado várias (tive muita dificuldade em “escolher”), por que não fotografar logo duas?

Como de costume, pedi que não levassem muita coisa e que escolhessem roupas neutras. Eu gosto de fotos que o rosto da modelo apareça, que ele seja o centro das atenções e não a roupa ou o decote que ela esteja usando. Elas foram e nos encontramos na locação. Um lugar vazio, em pleno feriadão de São Paulo, só para nós três.

Quando voltaram do banheiro, onde foram se trocar, eu criei uma dinâmica para que uma não ficasse esperando muito tempo a outra. Em cada cantinho que escolhia para fazer as fotos, primeiro eu fazia com uma, depois outros cliques com a outra e por fim eu fotografava as duas juntas.

Eu fiquei perplexa com o jeito como ambas devoravam as lentes, com muita altivez. Uma delas já é modelo e tem experiência, segurança e mais ousadia para posar. A outra não é modelo, mas tem uma naturalidade, uma personalidade e um ziriguidum só dela!

Não vi o tempo passar!

Aos poucos eu fui notando como era diferente o jeito das duas posarem. Uma delas é bastante contida, séria, SEGURA, ousada. E a outra passava mais vulnerabilidade, mais delicadeza, meiguice, doçura, mas ainda assim com muita personalidade, segurança e altivez. É muito importante que a gente ENTENDA e RESPEITE o jeito de cada pessoa que a gente está fotografando e que não a force se passar por alguém que ela não é. Se ela é uma modelo mais contida, não a faça sorrir se não quiser. Se é uma modelo que gosta de sorrir, não a faça fazer só fotos de carão o tempo inteiro. Eu acho DE VERDADE que metade do caminho para o sucesso de um ensaio de retratos está em o fotógrafo ter sensibilidade de captar a personalidade desta pessoa que ele está fotografando e deixar que ela seja exatamente quem ela é. Guiá-la, dentro do território de conforto dela.

É SEMPRE UMA PESSOA. NUNCA É UM “ASSUNTO”. 

Quem é essa pessoa que você está fotografando?

Eu fotografei a Patrícia, uma menina consciente de si e do mundo que a rodeia. Sabe quem é, sabe o quão grande ela é e sabe onde quer chegar. E também fotografei a Thaís, uma menina doce, sonhadora, que apesar de alguns sofrimentos por que já passou (como a perda da mãe) não perdeu a capacidade de sonhar, o sorriso no rosto, a fé na vida. Ela tem uma coisa especial que é só dela, uma luz, um encanto, não sei explicar e também não sei se ela tem consciência disso tudo, mas eu adorei poder mostrar um pouco pra ela de quem ela é.

Este foi sem dúvida nenhuma o trabalho mais incrível que já tive o privilégio de fazer e também o resultado que mais me surpreendeu positivamente. E achei que valeria a pena registrar aqui a experiência. 🙂

O ensaio eu publico mais pra frente, quando terminar de editar todas as fotos! 🙂

o tempo antes de tudo

Eu queria que junto com tudo o que vi ir pelo ralo, meu amor fosse junto. Queria que o jeito como eu te olhava tivesse ido junto para o precipício. Eu queria que todas as tardes em silêncio ao seu lado, tivessem desaparecido da minha memória. Queria que seus trocadilhos ainda não me fizessem rir e que meus registros não tivessem se transformado em coleções diante dos meus olhos, agora. Como é curioso pensar que fui a algoz de mim mesma, ao contar as nossas histórias em forma de mini-contos no facebook eu estaria apedrejando a minha própria memória no futuro, com coisas das quais eu não quero me lembrar. Eu queria que tivesse sobrado alguma coisa. Ou melhor, eu queria que não tivessem rebarbas destes anos todos em que eu vivi pelo amor e devoção que tinha a você. Eu queria que no escuro e no silêncio palavras não me invadissem, questionamentos não caíssem sobre mim sem pedir licença. Queria não ficar pensando e tentando entender em que momento nós nos perdemos, em que momento eu tinha te perdido de vista sem ter me dado conta. Eu queria que aqui, agora, pra onde eu olhe não fosse o seu rosto, o seu jeito que eu veja no jeito bucólico e acolhedor de tudo. Eu queria que você não tivesse sido tão duro com esta nossa história, que tivesse tido uma chance – que ela tivesse sido tão valiosa pra você que valesse a pena dar uma chance, ainda que te parecesse correr um risco. Queria ter notado a tempo e exterminado todos os fantasmas que agiam como muros no meio de nós dois. Porque a cada minuto que eu quero dizer alguma coisa, é pra você que eu sinto vontade de dizer. Cada vez que eu busco um colo, um abraço, ou que busco apenas uma presença pra ficar em silêncio, é em você que eu ainda penso. Mas você foi embora. Vivemos agora em duas realidades diferentes, você, seus novos amigos e seus novos interesses (incluindo os afetivos). O Deus que você está aprendendo a escutar –  eu queria tanto, tanto, estar vivendo isso com você. Mas eu continuo aqui, presa no tempo antes de tudo, sem conseguir emergir.

Eu queria que amanhã fosse um novo dia qualquer, um dia como todos os outros. E que tudo simplesmente tivesse passado.

Imaculada Conceição do Ipiranga

O sol escondia-se por detrás das nuvens; eu não compreendia que razão existia em ter o sol se escondendo de mim justamente no dia em que saí pra fora da toca pra fotografar. Tinha sentido aquela ânsia, bem parecida com a que sentimos quando puxamos um papel em branco (pra ser mais romântica do que dizer simplesmente que abrimos o editor de texto) pra escrever alguma coisa que nos está apertando o coração ou travando a garganta. E convidei alguém pra ir comigo até umas locações já conhecidas ali no Ipiranga. Não planejei muito. Apenas recolhi umas trocas de roupa mais vintage que tinha colecionado e pedi que a moça fosse com uma segunda pele.

Ela me aparece com uma calça jeans cintura baixa, um top que terminava quando terminava os seios e uma camisa branca aberta. O celular enfiado no meio dos peitos. Fiquei feliz em não ter que lidar com tarados na rua, os homens estão mais contidos? Mas antes de entrar na igreja, eu lha adverti: ei, fecha esta camisa aí. Você sabe como são essas pessoas da igreja.

Senti-me demasiadamente comportada – sempre desejei ser exatamente o contrário.

Entramos nos jardins da paróquia Imaculada Conceição do Ipiranga e fomos percorrendo os corredores vazios, ela com o vestido que eu lhe tinha levado – um vestido leve, branco, etéreo – de pés descalços, cabelos soltos, maquiagem leve e sem batom nos lábios. Tem o dom de captar a vibração das coisas, de acordo com a locação e com o que estava vestindo. E mudávamos vez em quando, dos corredores de arquitetura antiga – bem próprios de grande parte dos edifícios mais antigos do Ipiranga – para os jardins entre os prédios e o jardim maior, com bancos de praça e arbustos de azaleias (já quase murchas) que separavam a igreja do restante do prédio que é de uma universidade. Aproveitamos o sol como deu, entre um segundo e outro que saía de trás das nuvens. Pedi-lhe que ficasse de costas pra ele e registrei os fios dourados no contra-luz. Os olhos claros e o sorriso brejeiro sobressaía e misturava-se com a aura que estava sendo criada naquele momento, batizada pelos cantos de uma missa que estava sendo conduzia ali enquanto.

Achei que era uma paz bem merecida e bem buscada. Pedi-lhe que fechasse os olhos e fiz um retrato em paisagem – mas acho que quem queria fechar os olhos era eu. E nos embrenhávamos no meio de uma árvore baixa e seca, sem folhagens, sem nada, quando ouvi um senhor idoso se aproximar, ao corredor. Ele cantarolava qualquer coisa e parou, quando nos viu.

_ É para a turma de cinema da faculdade?

Eu estava com o texto pronto, esperando alguém perguntar o que duas mulheres faziam ali, sem ter pedido autorização, sem avisar, nem nada.

_ A gente tá só brincando! Tem menina que gosta de brincar de uma porção de coisas, eu gosto de brincar de fotografar!

Ele acedeu.

_ Está certo. Continuem!

Minha parceira de aventuras curte se pendurar nas coisas, pois pendurou-se nos galhos da árvore e soltou a cabeça pra baixo. Avisei-lhe que não tinha seguro. Ela diverte-se com o perigo e também curte arrancar flores dos arbustos, disse-lhe. Enfiou uma rosa vermelha no cabelo e, com o buço que não se havia tirado no dia anterior, lembrou-me a Frida Khalo.

Procurei apressar-me nos registros e não me ater às novas ideias que sempre aparecem quando estou em uma locação – que a criação sempre vem da interação e não tanto no planejamento da coisa toda, porque havia outros dois lugares que gostaria de ir. Antes, fiz o retrato em paisagem dela com os olhos fechados. Suba os braços, pedi.

Depois, lhe sugeri que fosse até o banheiro se trocar. Eu avistei o senhor que tinha conversado conosco sentado, sozinho, em um dos bancos – no pátio do câmpus. Murmurei para o vento que os velhinhos me enternecem e que eu devia ter sido geriatra. Senti vontade de sentar-me ao lado dele e mostrar-lhe as fotos lindas que eu havia feito, mas tínhamos  um problema para resolver: o banheiro estava fechado. Perguntei para ele onde teria outro. Na igreja, talvez? Ele arregalou os olhos:

_ Não!!!!! Na igreja não!!!!!!

Nos enfiamos atrás de um arbusto, eu fazendo a guarda enquanto ela se trocava.

Ela tira o vestido e coloca de volta a camisa, mas desta vez amarrada na cintura – só o micro-top e o umbigo de fora. Você vai assim? Perguntei sem pensar e senti-me a minha avó. Ela respondeu, com a merecida despreocupação: Só vou!

Passamos de frente ao velhinho, pra ir embora. De rabo de olho fiquei prestando atenção pra ver se se impressionava com a vestimenta da minha modelo. Não pareceu se importar – ou notar. As coisas do mundo externo não parecem ter peso algum por ali, num lugar tão cheio de paz.

(des)Equilíbrio

Ontem fui dormir pensando no quanto às vezes a gente esconde pra baixo do tapete o que realmente sente. Comprei um bolo pequeno de chocolate, um retângulozinho. Eu mandei ver, ontem, praticamente o bolo inteiro. Há pouco tempo enchi minha maleta de maquiagem de produtos, bem mais do que uma pessoa só precisa. Ou seja… sempre tem uma área da minha vida pra onde estou jogando minhas insatisfações e pendências emocionais. Há sempre alguma coisa em desequilíbrio, dentro de mim.

Eu não quero mais ser assim.

Está sendo muito díficil lidar com tantas coisas e tudo ao mesmo tempo. A carência emocional. A falta que faz ter alguém por perto pra conversar, falar sobre como foi o dia, ou mesmo escutar. A necessidade de tantas coisas – como viajar, conhecer outros lugares outras pessoas, outras culturas… a necessidade de um recomeço, de zerar DE VERDADE e reconstruir a minha vida. O desejo de pagar todas as minhas dívidas e poder de fato recomeçar com paz total de espírito. O desejo de poder finalmente começar a ter um pouco de renda fazendo as coisas que eu gosto de fazer (fotografia, textos), de colocar a minha arte em prática. A vontade de namorar, a carência afetiva e sexual. E ao mesmo tempo o MEDO que dá de me jogar de novo neste mundo louco de NUDES. Medo do que o futuro me reserva. Tristeza ao perceber que eu sou motivo de preocupação para mãe e pai. Que eles vão dormir preocupados comigo. Medo da solidão. E sabe, as minhas expectativas nunca foram altas. Eu só quero paz. Alguém com os mesmos princípios que eu. E quais são os meus princípios? Uma vida com simplicidade junto com a minha FAMÍLIA, fazendo o bem para quem esteja ao redor. Tudo isso somado à saudade que às vezes sinto dele.

Saudades da ironia, do bom humor leve (quando ele estava bem), dos trocadilhos, do frango com cebola refogada, da voz de ursinho, do barulhinho do joy stick, de quando ele brincava com o Hugo (o cachorro) ou abraçava o Tom de olhos fechados.

Onde você foi parar?!

Quando é que eu vou parar de pensar NELE e começar a pensar EM MIM?!

Às vezes pergunto pra Deus o que eu devo esperar. Esperar que ele perceba a grande MERDA que fez e retorne? Esperar que apareça alguém no meu caminho que realmente enxergue o meu valor? Mas, se ele voltasse, seria simples assim? Voltar e pronto? E se ele nunca voltar? E se de fato nunca perceber o que fez, e a mulher da porra que deixou pra trás? E se ele de fato não se importa? E se ele nunca me amou?

Que Deus me permita enxergar a verdade. Ela dói, mas ela é a única coisa real que nós temos.

Lembrei esta semana de quando começamos a namorar e dormíamos de mãos dadas. De como ele às vezes fazia voz de “ursinho”. Um dia saímos do shopping e eu estava brava, ele me desmontou totalmente com a voz de ursinho. Coisas que fazíamos e não sentíamos vergonha de ser quem éramos um na frente do outro. Pra 7 anos depois ele virar e dizer que não tínhamos sintonia – tudo porque não concordei em “ir morar no meio do mato em uma cabana se ele sentisse vontade” ou “não educar os filhos na escola”.  Foi embora dizendo que “estava assumindo sua radicalidade”. Aí, dois meses depois que saiu de casa, se dizia interessado em outra moça, uma evangélica. Um dia lhe perguntei se achava que daria certo, ele, quase um anarquista e ela, cristã consagrada. Conclusão. Ele se converteu e agora é Cristão também. E eu não sei o quanto disso é mais uma “fase” dele tentando se encontrar ou dele tentando se adequar à nova realidade da qual busca pertencer ou se é resposta de oração.

E, de verdade, nada disso acima deveria ser preocupação minha, a esta altura do campeonato. Eu tento seguir com a minha vida e não consigo sair do lugar, nem me desligar de quem amei de todo o coração.

Ontem fui dormir envergonhada por tantos excessos: doces, comidas, internet, consumismo. Isso é reflexo da confusão interna, mas não é reflexo do que eu verdadeiramente quero para a minha vida.

Estou perdida e buscando viver um dia de cada vez, com resignação ao que Deus achar que mereço. Talvez, entender o que eu realmente mereço me ajude a ter um presente e um futuro melhor.

Lili Lê

Leitura do tarô que a Liliane fez no canal dela. Perguntei sobre a minha vida afetiva… o que fazer sobre este assunto? As cartas que vieram:

  • enforcado (sentimento de estagnação… bingo!)
  • diabo (entre os significados que pode ter esta carta, um deles é a paixão, atração física)
  • amantes (um novo “amor”)

EITA.

O meu sol vai nascer

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Para Cesinha, Feliz aniversário!

“Espera aí, filha. Não vem ainda. Estou preparando o mundo perfeito pra te receber. Está dando um pouco de trabalho, porque ele tem que ser assim perfeito, como você é perfeita pra nós. Quando a gente bota os olhos nele tem que crescer a pupila, pra ser na altura da minha pequena princesa. Todos os dias têm de ser cheios de luz, como se o sol nascesse dentro do seu quarto, só pra você. Mas se chover, eu te prometo que vai ser gostoso mesmo assim. Você vai estar com a naninha no pescoço ou nas mãozinhas e vai adormecer, ouvindo de fundo o barulho da chuva. E flores, são todas. Não são nem as da estação. A mamãe vai dizer que eu sou exagerado, mas não sou não. Ou melhor, todo o exagero no amor por você será pouco. Eu sou só coerente com a lindezisse da minha filha. Todas as flores, o jardim inteiro pra você chegar. E vou jogar algumas pétalas no chão, no seu berço, na água do seu banho, e desfolhar as rosas e colocar no meio do seu álbum de fotografias. O quarto inteiro recheado de marshmallows. Bebê não come marshmallows? Tudo bem, não tem problema. Ter todas as listas mais legais do Spotify. Playlist pra tomar banho, playlist pra dormir, pra chorar, pra mamar, pra conversar, pra passear – playlist pra nascer. O São Paulo tem que estar na melhor fase, e ser campeão no dia do seu nascimento. O Temer tem que cair. O Netflix tem que colocar filmes mais legais. O mundo mesmo tem que ter cenas mais bonitas pra você observar. Todos os brinquedos mais queridos e engraçados e lindos e coloridos, ah e também todas as texturas, pra todas as fases. Essa busca não tem fim, como não tem fim o amor desse pai de olho marejado e sorriso dando a volta na cara. E quando eu achar que está tudo pronto, ainda vai estar faltando um mundo pra te receber como você merece. Aquele que está à altura do tanto que você já faz a gente feliz. Mas nunca vai estar nem na metade, nunca vai chegar nem perto. Eu pensei, pensei, pensei em uma maneira de resolver isso… tentei achar um jeito de preparar o mundão ideal pra receber a minha menina querida. Minha flor preferida. Meu solzinho luminoso. Até que me dei conta de que o nosso mundo, na verdade, ainda está pra nascer. “

O texto tem um delay, porque o solzinho já nasceu e é de Gêmeos! Mas inspiração é inspiração, escrevi do jeito que veio no coração. 🙂

Ligações que a gente nem sabe que tem

Se eu te pudesse dizer

Aquilo que nunca direi

Tu terias que entender

Aquilo que nem eu sei.

Fernando Pessoa

 

Às vezes gosto das pessoas. Às vezes amo (e me fodo). Às vezes adoro. E às vezes eu sinto um carinho gigantesco e absolutamente inexplicável. Me lembro de duas pessoas despertaram isso em mim de uma forma muito… FOFA (rs). Um chefe e um professor. Teve mais, mas agora só consigo lembrar deles.

E tem um bocado de pessoas que se dissessem que entre nós seria uma receita de carinho genuíno e mútuo, muitos duvidariam. Isso porque geralmente quando nasce um carinho gostoso entre eu e alguém, este alguém frequentemente tem a personalidade absolutamente oposta à minha.

Uma destas pessoas foi meu chefe. Eu com 22 anos, ele uns 50 e poucos. Casado, filhos, netos. Me disseram antes de eu começar a trabalhar ali: olha, eu já vou te avisando… o cara é um italianão que fala alto, grita, manda tomar no cú, fala palavrão. Não vai te assustar, que você é toda docinha, meiguinha e tal.

Eles estavam mesmo achando que eu ia pedir demissão em uma semana. Mas o cara virou um dos meus grandes amigos (até a esposa ciumenta me colocar pra correr). Sentava-se ao meu lado todos os finais de tarde antes de ir embora e conversávamos sobre a vida, a morte, o amor, as pessoas, as coisas engraçadas. Ele sempre me respeitou e nossa amizade sempre foi como a de um pai e uma filha.

Infelizmente, a história acabou mal e a esposa interpretou um dos meus e-mails da pior maneira possível. Devia ser um inocente: oi queridoooooo!!!! Porque eu sempre fui muito muito espontânea. A mulher surtou. Achou mesmo que eu estava dormindo com o marido dela. Mas eu aprendi, já naquele tempo, certas lições; e uma delas é que eu posso ser inocente, como sou, mas o mundo não é (aliás, esta lição é bem cruel de se aprender).

E já naquela época eu fazia teatro – fazia teatro à noite, trabalhava durante o dia. E no último semestre, meu professor/diretor era um cara BEM BEM BEM maluco (aparentemente). Por fora, tinha cara de “caminhoneiro bêbado” como ele mesmo se definiu uma vez, haha, mas por dentro eu sentia que tinha um cara sentimental, sensível, visceral, enfim. Um cara que não sabe direito o que fazer com o que sente em relação às pessoas e ao mundo. E então, ele vai e transforma isso em arte (e deve continuar fazendo isso, porque o trabalho dele é lindo). Assim como aquele meu chefe, de mandar tomar no cú, de falar todos os palavrões em alto e bom tom, de chamar a região da virilha de “IP” e de fazer as montagens mais malucas abstratas e os exercícios mais absurdos intrigantes segundo os meus parâmetros da época (e o mais engraçado de tudo é que eu gostava).

O fato é: não sei dizer por quê eu sentia um carinho tão grande por ele, não sei se foi porque foi o professor que mais me tirou da zona de conforto (e eu AAAAAAMOOOOO quando alguém faz isso rs), o que mais me fez crescer como pess Iooa e principalmente como atriz. Fato é que eu sentia. Cheguei a fazer algumas coisas bem cafonas como escrever textinho no último dia de aula, enfim… coisas que atualmente eu jamais faria (este aqui não conta porque ele não vai ler, hahahahaha) e me dá timidez só de lembrar. Se ele não sabia o que fazer com as coisas que sente sobre as pessoas e o mundo, eu não sabia (nunca soube) canalizar direito meu carinho com as pessoas e enfiava meus pés pelas mãos.

Uma das peças que fiz com ele era um texto alemão (Woyzeck, Georg Büchner) e no dia da divisão dos papéis eu achei tão ridículo todo mundo se estapeando e brigando porque um tinha mais papéis que o outro, que tudo o que consegui fazer foi levantar a mão para interpretar o único que ninguém quis saber – um médico maluco, BEM BEM BEM maluco (BTW, a cena é gigantesca, não acredito que decorei todo aquele texto). O processo pra chegar nele foi “violento” (e começou terrivelmente ruim rs), mas foi a melhor interpretação que eu fiz na vida (segundo meus parâmetros, os dos outros não sei rs). Depois deste semestre e da Mostra, veio o estágio e o meu coração já tinha escolhido quem eu queria que fosse o professor do estágio, mas eu dependia da turma e, felizmente, eles escolheram justamente ele. Portanto, nós ficamos 1 ano com esse cara e meu carinho foi só amadurecendo.

Me lembro de um dia que era véspera de Páscoa e eu tive uma ideia inusitada durante a aula mesmo, queria lhe desejar Feliz Páscoa. Saí e comprei um Kinder Ovo. Quando fui entregar pra ele, ele estava assistindo a cena de algum grupo… lembro-me da ternura que sentiu, se derreteu todo com o Kinder Ovo (hahahaha) o que fortaleceu minha tese de que aquela cara de mau não me enganava.

Outra história que eu tenho pra contar sobre ele é que foi a pessoa quem me convidou (e me convenceu) a entrar no Facebook, na época em que só entravam pessoas com “convite” e tal e coisa. Mas de lá pra cá, nós realmente só tivemos contato através da rede. Uma ou outra conversa inbox, um convite dele para ver sua peça que acabei não conseguindo ver, uma conversa sobre um livro que eu emprestei pra ele (achei que seria uma montagem bacana se ele adaptasse o livro) e que sua filha acabou sem saber que ele já tinha o livro, pedindo-lhe que arranjasse… enfim. Não nos vimos mais, senão um dia no caixa de um supermercado da Mooca (editado: este dia foi exatamente o dia 23 de Agosto de 2013 – o Facebook acabou de me lembrar disso).

Mas carinho é carinho, a gente não deixa de sentir carinho por alguém só porque não o vê mais.

Acontece que há umas 3 semanas atrás, um belo dia, eu acordei, olhei pro teto e SENTI: PRECISO VER O FULANO. PRE-CI-SO VER O FULANO, AGORA. Não dava. Ele não estava em São Paulo. Se ele estivesse certamente teria se surpreendido com uma visita minha naquele mesmo dia, mas não estava. Meu coração ficou APERTADÍSSIMO, senti uma SAUDADE esquisita, uma angústia HORRÍVEL que eu não entendia e não sabia explicar, mas eu repentinamente, DO NADA, estava com muita saudade desta pessoa. Quando me lembro disso eu sinto aquela angústia de novo, porque foi muito muito ruim, MESMO. Eu, que estava vivendo uma situação muito difícil na minha vida, não entendi ABSOLUTAMENTE NADA  do que estava sentindo e supus que não poderia dar muita bola para aquilo, porque estava sentimentalmente muito frágil e vulnerável (é o que uma separação causa).

Na época, no entanto, eu não tive coragem de igualmente surgir do nada e dizer isso pra ele: oi, estou com muitas saudades de você. Mas talvez devesse.

No começo da semana passada ele sofreu um infarto. Está vivo. Mas poderia não estar, não é? E se tivesse ido para os palcos de outras vias, eu não teria tido a oportunidade de fazer com que ele soubesse o quanto é querido para mim.

E as ligações que existem entre as pessoas são infinitas, impalpáveis, inescrutáveis. Inexplicáveis! Você um dia acorda, olha pro teto e sente uma saudade doída de alguém que três semanas depois sofre um incidente grave. Aquele coração apertado, aquela saudade repentina, era isso: um pressentimento. Que especial e que maluco tudo isso, não??? Não tem explicação pra este tipo de coisa, nem tem que ter.  Carinho a gente só sente, e demonstra. Eu acho que sempre fui fiel ao que o meu coração me diz e, quando esteve ao meu alcance, resolvi com um kinder ovo, um texto, uma foto…

O problema comigo acontece quando não posso fazer nada. Não posso falar: Ei, acordei pensando em você. Estou com saudades. Queria te ver. Não posso ir até a pessoa por motivos de força maior. Não posso fazer nada nada nada.  🙁

Depois do episódio eu já o fiz perceber, de uma forma bem sutil, que me importo com ele. Mas pra não assustá-lo (de variadas maneiras) não contei toda a história rsrs.

Como libertar um coração idiota

Up on melancholy hill
There’s a plastic tree
Are you here with me
Just looking out on the day
Of another dream

Well you can’t get what you want
But you can get me
So let’s set out to sea
‘Cause you are my medicine
When you’re close to me

On Melancholy Hill

[Gorillaz]

Tudo bem, coração. Eu me dei por vencida. Sentei-me e estou aqui com o papel em branco na minha cara – o que é uma das coisas mais horripilantes que podem acontecer à pessoa que escreve. Eu sei que você não leva isso muito à sério, porque sabe que no caso de quem transborda, coisas piores podem acontecer, bem pior do que um papel em branco.

Mas aqui estou. E eu sei que a estas horas você deve estar rindo da minha cara, porque sabe que eu tentei dar uma volta por aí e fingir que tinha um coração novinho em folha, pronto pra outra, praticamente em branco, assim como esta folha de papel. Então eu olhei outros olhos, outras bocas, olhei pra tudo (só não olhei pra outros corações, preciso confessar). Mas todos os caminhos me mostravam a mesma coisa. Todos os caminhos davam no mesmo lugar… aí eu entendi que o amor é um caminho sem volta.

Quando a gente ama alguém, não tem volta. Não interessa o que vá acontecer depois, não tem relação com a presença física de quem a gente ama: o amor existe, ele é e não tem volta. Você ama e pronto, acabou. Não interessa quantas merdas a pessoa tenha feito (e se foi com você). Não interessa quantos episódios existiram que te fez sentir vontade de voar no pescoço dele ou dela. Não interessa se ela está ou não está, se ficou ou se foi embora. E também não interessa se está sozinho (a) ou com outra pessoa. Se você ama e se é amor MESMO, você ama, e pronto acabou.

E será difícil se você tentar fazer os outros entenderem os porquês. Por que tanta condescendência, por que tanta doação, porque tanta abnegação, às vezes? Como agir como se não tivesse existido um passado de muitas dores. De que maneira, ainda assim, a gente só consegue lembrar da parte boa? E como a parte boa é maior do que as outras que nos humilharam, nos fizeram chorar, que doeu e que nos fez sofrer? Eu nem tentarei.

Só quem escolheu amar com consciência e de todo o coração, só quem tem total domínio do próprio coração e sabe direitinho onde está escolhendo pisar – mas ao mesmo tempo não está nem aí – só quem ama entende as próprias razões e os próprios caminhos. Eu não farei mais nada. “Vou tirar a mesa”. Vou deixar a porta encostada e as janelas abertas.

Dito isso, a partir de agora, eu te liberto, senhor coração. Você está livre pra viver o que quiser. Vai encontrar um rumo, vai. Voa por aí, escute todas as histórias, presencie tudo o que puder que valha a pena, transborde onde existe espaço pra receber todo seu mar. Pra preencher espaços vazios. Pra acalentar quem precise de um acalanto. Pra alumiar quem precisa de luz. Pra fazer cócegas em quem precisa rir. Pra fazer sentir quem não sabe chorar. Você está livre pra fazer outros estragos, se quiser. Eu honestamente não sei mais o que fazer com você, senão te libertar: Livre, você vai parar de me incomodar. Então vai e suma da minha frente, porque assim você não vai mais me atrapalhar com tanta aguaceira. Não transborde mais aqui. Transborde sim, mas bem longe… em outro lugar.

[Photo Source: Werner Moser – via Pexels]

Palavras que eu não posso dizer

Não tem nada mais bacana que a gente olhar pra trás e se dar conta de que tudo o que fez, fez com o coração transbordando de amor e que faria tudo de novo. E mesmo a gente estando longe, mesmo que doa, eu fico feliz em saber que eu sou coerente e que fiz tudo por amor (e com amor). Fui real, fui inteira. E o tempo passa, vão caindo algumas fichas. Será que pra você também cai? Às vezes a gente acha que não tem nada a ver com alguém, ficava acreditando que talvez você estivesse certo e nós realmente não tenhamos nada a ver um com o outro, até passar por uma ou outra situação e me lembrar de que já tinha acontecido com você junto comigo e você me entendia como ninguém. Aí eu comecei a tentar prestar atenção em outros caras, rolou uma puta atração física por vários deles… mas os dias vão passando e o que faz mais falta é uma conexão que eu só tinha com você. Será que você também sente isso? E nada do que eu pensar vai apagar o fato de que você foi muito bizarro, muito radical, muito injusto comigo, com nosso relacionamento de 7 anos que não resistiu aos seus novos amigos, às suas novas ideias, seus novos sonhos com os quais eu não concordava muito. Pareceu ser muito fácil o ajuste que você fez me tirando da sua vida, desmanchando um casamento, se interessando por outras meninas, colecionando várias delas no seu Facebook. Isso não vai mudar. Mas – o tempo foi me dizendo isso – eu também não sei se o meu amor vai mudar. Eu sinceramente gostaria que mudasse, mas não é tão fácil assim. O amor a gente não escolhe, a gente sente. Eu te vejo – quando a gente precisa se ver – e vejo um cara tentando lidar com seus problemas, assim como eu; uma pessoa solitária, assim como eu; um ser humano frágil, assim como eu. Continuo vendo tristeza no fundo dos seus olhos, sinto uma vontade imensa de arrancar ela pra fora. Um certo incômodo quando me vê – não sei o fundo deste incômodo, mas sinto que existe. A vontade que eu tenho é de pegar suas mãos, de sentar ao seu lado, de te dar um beijo no rosto, te chamar de potato. Você criou um enorme distanciamento entre nós e esta semana eu percebi algo terrível. Eu não perdi só meu marido. Eu perdi o meu melhor amigo. alguém com quem eu me sentia confortável, em casa, tranquila, serena. Peço a Deus que te faça, um dia (e à tempo) retornar para onde você é querido e amado. E também peço a Ele que me dê um sinal se por acaso eu preciso desistir, porque desistir é algo que não aprendi a fazer. Eu não passei 33 anos na igreja pra jogar a toalha. O que eu aprendi teve base em todas as curas e restaurações que eu já vi, em todos os perdões que foram pedidos e foram dados. No que eu aprendi a chamar de sagrado. Acredito, com muita fé, que é só uma questão de tempo.