Não disse tudo o que eu queria, ou talvez não tenha tido a competência de saber dizer (às vezes é melhor assim. Palavras podem colocar limite naquilo que não necessariamente tem)… pareceu haver um estranhamento quando nos olhamos, que eu interpretei como sendo um cara em êxtase depois de um grande feito, orgulhoso, encantado. Eu estava na frente dele, dei-lhe um abraço e disse-lhe que tinha achado o espetáculo muito lindo, mas ele nem tava me vendo ali, tava ainda fora de órbita. Eu compreendi, me enterneci e fui embora (até porque, estava tarde e eu estava sozinha).

Era uma peça de teatro e tinha bem mais gente do que ele esperava (e eu também – não porque ele não seja bom, mas porque estou mesmo bastante desiludida com a valorização que dão para a arte, neste país). Umas cem pessoas e ele disse que esperava dez. Entrou em transe junto com o espetáculo, mesmo que estando de fora, apontando as lanternas para os atores, e se fez parte da encenação – e me fez lembrar todas as minhas aulas e estudos de Artaud, Stanislawski e tudo mais – inclusive os tudo o mais dele próprio e de tudo o que ele mesmo dizia (e fazia).

Eu fiquei ali atrás assistindo tudo, babando em tudo aquilo e nas imagens formadas nas paredes quando se apontavam para os atores as lanternas maiores ou menores, de cor fria ou quente, debaixo de uma noite estrelada, fresca e agradável, ali pelo centro. Ao redor, os moradores dos prédios pareciam estar acostumados com os repentes culturais e artísticos que preenchiam os cantinhos da cidade e esbarravam neles próprios, como quando as sombras dos performers cresciam e alcançavam ali os últimos andares de um dos prédios.

Os meus olhos absolutamente deleitados com as imagens lindíssimas e me achando absolutamente privilegiada por estar ali, naquela hora, presenciando aquilo.

Do jeito que o diabo gosta, e eu também: Sempre fui bem encantadinha pelas performances fora do palco italiano, que abarcam a platéia junto. Acontece sempre um milagre, ali, que muita gente não se dá conta – e que frequentemente me faz precisar de alguns dias para me recuperar, quando o espetáculo acaba.

A nossa força juntos, ao redor daquilo que nós buscamos, acreditamos e amamos. E eu tô falando só das coisas lindas – lindas e findas, como disse o poeta.

Não seria a arte, e a gente, parte delas?

Se fosse uma metáfora poderia ser uma dança coletiva, os atores nos levavam pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. Ninguém sabe do lado de quem ficou, quantas vezes precisou se locomover e mudar de lugar, estávamos totalmente envolvidos pela encenação linda e atípica e era como se fôssemos uma coisa só e estivéssemos todos ligados e respirando juntos. E eu, ali, tão pequena – quase insignificante (e eu gosto que seja, quando posso passar desapercebida e assistir tudo o que tiver pra assistir e contar o que tiver pra contar) – deixava cada palavra do texto profundo, visceral e poético entrar pelos meus poros e aumentar um pouco (um pouquinho) os meus batimentos cardíacos. Quem escreveu o texto da peça, sabe se entregar – e sabe sofrer. Sabe esperar. Às vezes, se equilibra entre o ceticismo e a ilusão, tão sedutora. Não parece se entender ou se definir, não parece desejar se definir – e não se cobra por isso. Toca na própria ferida com essa coragem aí e quando dói nele dói em nós também. Doeu eu mim. Diz o que ele queria dizer e o que todos os outros queriam. Diz, inclusive, o que eu nem me dei conta de que queria, ou precisava dizer. Disse por mim, sem eu pedir.

Foi quando eu busquei o ar, foi quando eu enxuguei os meus olhos. E foi quando eu te procurei,  no meio da multidão.

Os meus olhos entorpecidos buscaram você – de uma forma instintiva, natural, quase reativa. Daquele instante em diante, eu não fui mais honesta: nem comigo, nem com você, nem com ninguém. Se tivesse sido e se tivesse transparecido a minha vontade mais pura e genuína (tão digna daquele momento), você teria sido surpreendido nestes termos:

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