Eu tenho pra mim que quando uma coisa está sendo preparada pra minha vida, ela vem em grande estilo. E o cuidado de Deus com isso está nos detalhes, como quando o cara do Uber veio me buscar rumo ao aeroporto. Chamei um sedan, porque eram duas malas e mais a minha mochila. Foi um mês inteiro organizando a logística desta viagem – para quase 40 pessoas (e o inferno às vezes mora no detalhe também). Era hora de curtir aquilo para o que eu tinha trabalhado duro pra organizar. Fui sem pensar muito. E também foi sem pensar que eu comprei as minhas malas, os acessórios de viagem, que organizei a minha lista de coisas e que escolhi de todas as lentes que eu tenho, qual delas levaria para minha viagem à Vegas.

Porque se eu pensasse nos detalhes, eu simplesmente não entraria naquele Uber. E que o que eu estava prestes a fazer era passar por algo que eu tinha fugido como o diabo foge da cruz, nos últimos tempos: entrar em um avião. E entrar em um avião pra ficar por mais de dez horas nele!!!!!!

O motorista do Uber tinha feito intercâmbio nos Estados Unidos duas vezes, uma delas para o Texas e outra para outra cidade que agora não lembro. Contou-me que os americanos são contidos, e que seus anfitriões sempre lhe deixaram bem à vontade – mas sempre ficaram bem na deles também. E, antes de eu desembarcar no Terminal 3 (o da American Airlines), ele me deu a dica derradeira: eu poderia ver o lugar onde eu moro de cima e poderia tentar tirar uma foto, se pedisse para a comissária de bordo.

Não disse pra ele que dispensava tudo aquilo: abrir a janelinha do avião a 30 e poucos mil pés, pedir para a comissária fazer algo que não é permitido durante o processo de pouso (levando em conta que quando o avião passa acima da minha casa ele já está bem pertinho do aeroporto, com o trem de pouso pronto e tudo)… não não não, eu dispenso tudo isso e dispenso inclusive sentar na janela.

Algo que acabou acontecendo em um dos vôos domésticos nos Estados Unidos (pra voltar) e é obvio que a janela ficou fechada o tempo inteiro, só a abri quando senti a rodinha tocar no chão do aeroporto de Dallas.

Segui com minhas duas malas e a minha mochila para o check-in da American. Eu já tinha baixado o aplicativo e feito o pré-checkin, portanto a atendente da fila me encaminhou para a fileira de priority para despachar as malas.

Neste momento eu descobri que tinham me colocando na cabine Premium Econômica sem custos: me senti uma princesa (seria rainha se eu tivesse ido pra Executiva ou Primeira Classe).

A moça do Priority conseguiu achar meu número do programa de fidelidade da American e pontuou as minhas milhas. Deixei minha mala média despachada para Las Vegas – mas teria que recolher a mala em Dallas.

Nisso comecei a procurar uma parte das 28 pessoas que me acompanhariam no mesmo voo para Dallas. O primeiro que achei foi o Erik, um moço quietinho e simpático (um dos nossos clientes). Descobrimos que tinha mais dois de nós no TGI, em frente ao check-in e fomos encontrá-los. Mas eles não tinham ainda feito seu checkin. Foram para a fila e eu e Erik fomos para o ponto de encontro combinado, onde todos nós nos encontraríamos a partir das 19h50, antes de entrarmos na sala de embarque.

A rodinha de gente foi aumentando e eu fui reconhecendo os rostos que até então só havia visto nos thumbnails do WhatsApp.

Entramos na sala de embarque e a minha primeira trapalhada foi na hora de passar o código de barras do bilhete no dispositivo eletrônico na entrada da sala. A segunda foi ter colocado o passaporte de ponta cabeças, de modo que a máquina não reconhecia minha foto (nessas horas é bom ter a chefe experiente do lado, pra dizer: Meeeeel, do outro lado!!!!).

Sim, eu nunca tinha feito uma viagem internacional antes.

Sim, eu já trabalhei em duas companhias aéreas. Não eu não viajava de graça. Eu dava meus bilhetes para as minhas irmãs. Porque sim. Não, eu não me importava.

Só que com o tempo essa coisa de você ficar fechadinha no seu mundo rodoviário começa a te cobrar a conta. Quando chega essa hora você sabe que esse monstro (o seu medo) está se aproximando de você e que você só vai avançar de fase se enfrentá-lo.

Então um dado momento, na sala VIP da Latam, minha chefe me perguntou: e aí, perdeu o medo de viajar Mel? Eu respondi, enquanto bebia uma taça de vinho, que não.

_ Tô indo com medo mesmo.

O vendedor que estava ao nosso lado deu risada e me recomendou que tomasse outra taça de vinho.

Corremos para o portão, pois o embarque começaria em poucos minutos. Eu estava feliz e ainda mais feliz por estar no aeroporto, em um lugar tão charmoso (eu gostava de trabalhar lá) e prestes a enfrentar o absolutamente desconhecido. O que eu sentia era um misto de medo e de êxtase. No portão de embarque foram chamando por grupos – o meu era o 4. Passei a porta do gate. Entrei no finger (será que vocês sabem que aquele negócio que conduz vocês ao avião se chama finger?) e depois, na aeronave.

(Eu nunca olho a aeronave quando entro em uma, só olho depois da viagem rs).

Achei meu lugar: o corredor nas 4 cadeiras do meio, última fileira. Meu assento não reclinava, mas e daí? Eu tava na econômica premium… espaço para pernas!!!

E ao meu lado sentaram três pessoas de uma mesma família, sendo que uma delas, a mãe, uma loira grande e espalhafatosa, não falou muita coisa comigo até o comandante passar um recado em inglês. Aí ela falou comigo para perguntar se eu tinha entendido o que ele disse.

_ Ele disse que a aeronave está em manutenção, ainda. E que levaremos alguns minutos para prosseguir.

Ela disse – e eu tentei não dar muita bola:

_ Ah mas então eu acho melhor a gente trocar de aeronave!!!!

Estes minutos viraram horas. O comandante disse três vezes que a pecinha em questão era uma peça na turbina (!!!!) e que eles tinham pedido emprestado esta peça de reposição da Latam (!!!!!) mas que estava demorando mais do que o normal. Recebi um aviso de atraso pelo aplicativo por mais de três vezes, até eles finalmente cancelarem o voo – quase três horas depois.

Mandaram a gente para um hotel, o Marriot, ali pertinho. Eu estava cansada, exausta e arrasada: tinha dado um trabalhão para orquestrar os voos e os horários de todo mundo, incluindo horario de chegada em Las Vegas e o Shuttle até o hotel, com estas 29 pessoas e com as outras que chegariam uma hora mais cedo que nós. Nós íamos perder nossa conexão em Dallas. O gato subiu, mesmo, no telhado.

O ônibus ia e voltava para buscar as pessoas da enorme fila para levar até o hotel. Nós fomos no último grupo e quando chegamos na recepção do hotel, ficamos praticamente no final da fila para fazer o check-in. De modo que quando estava quase chegando nossa vez, o recepcionista do hotel disse que os quartos tinham acabado e que não era pra gente gritar com ele ou brigar com ele, porque a American tinha mandado todo mundo pra lá sem nem perguntar quantos quartos restavam e se teria lugar para todo mundo.

Nós pegamos uma senha e iríamos esperar vagar um quarto e até lá o cochilo teria que ser no sofá, mesmo. Eu tentava ver a coisa pelo lado menos ruim: não embarcamos no avião bichado. O defeito tinha sido descoberto em solo. E nenhum de nós estávamos tão encrencados como o time de pólo aquático canadense que iria perder sua conexão internacional…!!!! No meio dos meus pensamentos um colega que estava antes de nós na fila e para o qual um quarto estava sendo disponibilizado, ofereceu a vez pra mim e pra minha chefe.

Escovei os dentes, lavei o rosto e me joguei na cama. Cansada, exausta – e menstruadíssima. Na manhã seguinte acordei com a minha chefe ligando para a agência e tentando entender o que deveríamos fazer. No grupo que montamos para reunir todos nos nossos companheiros de viagem, sobravam questionamentos e intimações para resolvermos o problema. A agência disse que a companhia aérea havia bloqueado o acesso ao sistema das reservas do 962 e eles estavam portando de mãos atadas.

Nem todos aceitaram este argumento.

Descemos para almoçar. O combinado era que fôssemos até o aeroporto por volta das 17 horas, pra resolver o problema nosso e dos outros. Só que quando chegamos lá, a loja da American estava fechada, de modo que precisamos esperar por alguns minutos. E quando abriu, a moça apenas disse:

_ As reacomodações de vocês já foram todas feitas pela American, é só olhar no aplicativo e fazer o checkin.

Aquela história de 29 pessoas voarem juntas até Las Vegas? Já era! Pode esquecer. Cada um tinha sido encaminhado pra um canto. E eu, para um vôo estranho de Dallas pra Phoenix e Phoenix pra Las Vegas. Como eu iria sozinha, usei o aplicativo mesmo para mudar o meu voo de conexão para o mesmo voo que apareceu para algumas pessoas. Entrei na fila para despachar as malas e quando chegou a minha vez, a moça japinha que estava me atendendo me disse, olhando para a tela:

_ Na verdade o voo de vocês ainda não está disponível, Sra Melissa. Vou acomodar você no 962 de hoje.

Pra mim tava ótimo, outra – ou-tra!!!! – aeronave. Mas neste voo do dia, já com suas próprias reservas, não caberia as 29 pessoas do nosso grupo.

O gato tinha novamente subido no telhado, ou nunca tinha descido de lá.

Liguei pra minha chefe pra contar a novidade, ela num primeiro momento não entende, depois entendeu e ficou igualmente preocupada. E a japinha que não olhava nunca pra mim, só olhava pra tela, havia me dito assim:

_ Melissa se você ficar neste voo de conexão que você escolheu, você vai perder o voo. O tempo está muito curto. A única disponível é a conexão de Phoenix.

Eu portanto levei em conta que se o universo estava querendo que eu fosse para Phoenix, então eu iria pra Phoenix. Peguei meus bilhetes.

O nosso voo chegaria originalmente em Vegas às 10h47 do dia 27. Eu iria chegar às 11h29 do dia 28 (o evento só começaria um dia depois).

Catei o voucher de jantar que a American nos deu e me juntei aos outros para comer uma enorme salada no Olive Garden, ali perto da entrada da sala de embarque. Eu ainda estava apreensiva e não conseguiria comer algo mais pesado.

Terminada a sala, me afundei sozinha no sofá da sala de embarque, portão não lembro mais qual, com meu JBL. Ouvia música, observava as pessoas. Alguns brasileiros, outros gringos. Ao meu lado, um casal de chilenos. Ele com el bigodón (essas coisas que distraem a cabeça da gente). Confirmei com a opaca atendente do balcão se o portão era aquele mesmo. Era aquele mesmo. A contagem regressiva havia começado (mas eu ainda não tinha tirado meu gato do telhado, just in case).

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