(Leia a primeira parte, se você não leu ainda)

Dessa vez o meu assento era o primeiro da fila na cabine Premium, ao lado dos dois amigos da fileira de emergência. O Maicon (cliente) e o Amilton (vendedor) estavam sentados ao meu lado. Oba! Rostos conhecidos! Gente pra agarrar a mão caso seja necessário. Companhia pro Padre Nosso. Lá vamos nós – e espero que dessa vez dê certo.

As pessoas foram passando, passando, passando, até a aeronave encher. Tinha talvez umas dez pessoas conosco, todos os outros tinham sido acomodados em voos para Miami ou Los Angeles e parte dos que estavam indo para Dallas iriam para Los Angeles para só então irem para Vegas – sim, a American tinha feito esta várzea para poder acomodar todo mundo.

Hora de enfrentar um vôo de dez horas e vinte minutos…!!!

Fiz todas as orações de que me lembrei até chegar o momento da decolagem e levei um chiclete, porque dizem que é bom decolar mascando chicletes. Quando o avião decolou, eu senti a mesma coisa que sentia quando subia uma montanha russa: excitação e medo.

Após atingir a altitude de cruzeiro, os comissários saíram de suas posições e tomaram o caminho da roça. Nesta altura eu já tinha escolhido um filme pra assistir (o critério: um filme bobinho que me faça esquecer onde eu estava e o tanto de tempo que tinha pela frente).

Acho que foi na metade do filme que o comissário gringo apareceu ao meu lado perguntando se eu queria pumpkin ou beef para o jantar – e é claro que esta vegetariana escolheu pumpkin – e vinho tinto.

Sim, porque em casa eu tinha perguntado se eu deveria levar meu dramin (nunca tomei dramin) e as recomendações da minha família: toma vinho!!! O vinho funcionaria melhor (coisa de quem sabe o que está dizendo ou de quem conhece muito bem para quem está dizendo).

A comida estava maravilhosa: um escondidinho de abóbora japonesa com queijo gratinado, salada, azeite, meu vinho e um pudim de baunilha como sobremesa. Comi feliz. E enquanto comia, conversava com o Maicon, a quem dei uma ou duas cutucadas para despertá-lo do cochilo e avisá-lo do jantar.

Tá, na volta eu não fiz isso e deixei a moça que estava ao meu lado dormindo.

Mas vamos nos ater à ida.

Depois que eles recolheram nossas bandejas, fui ao banheiro (claro que me segurei enquanto fiz o meu xixi, vai que…).

O vinho foi fazendo efeito, vários efeitos – menos o que eu precisava que fizesse. Primeiro senti calor, tirei o cobertor que a companhia aérea dá, tirei a jaqueta (a mulher tá com calor, gente!!!). Depois foi me dando uma moleeeeza e eu botei um chill pra tocar enquanto eu curtia uma quase soneca. Uma soneca sem ser soneca, como se você dormisse acordada. Coisa de quem quer dormir, mas ao mesmo tempo e no fundo, bem no fundo, não quer.

Não sei quanto tempo eu fiquei chapada assim. Talvez quase duas horas. Quando o efeito do vinho passou, eu voltei aos filmes. Primeiro assisti A Esposa (e a Glenn Close está monstruosamente boa, mesmo), depois assisti Mary Shelley (preciso escrever sobre este filme), chegando a conclusão de que eu TINHA que ver este filme: no final ela fala uma coisa que eu poderia ter dito ou escrito, depois de tanto se ferrar (alerta de spoiler):

_ Tudo o que me aconteceu fizeram ser quem eu sou hoje. Eu não me arrependo de nada!!!

Nessas alturas eu já nem lembrava que estava dentro de um avião. Estava envolvida com meus insights e aprendizados voadores. Mas toda vez que o avião chacoalhava eu me lembrava do trecho bíblico em que Jesus e os apóstolos estão dentro de um barco no mar, o mar bravo. Os apóstolos ficam com medo, aí Jesus diz:

_ Como sois medrosos!!! Ainda não tendes fé???

Eu repetia isso pra mim: você não tem fé, Melissa??? Só que o medo foi sendo substituído por um saudosismo, explico: quando estou no carro como passageira, o chacoalhar do carro na rua me dá sono. O movimento do avião é o mesmo e causa quase a mesma coisa (ainda mais depois de uma ou duas taças de vinho).

Eu fui dizendo a fala de Jesus toda vez que vinha turbulência: ainda não tendes fé, ainda não tendes fé, ainda não tendes fé… e pensando que milhões de pessoas voam todos os dias e que turbulência é normal, afinal de contas você viu no fantástico que quando tem turbulência é porque a velocidade do vento acima da asa é diferente da velocidade do vento abaixo da asa e que se você olhar para a cara das pessoas está todo mundo de boa, assistindo seus filmes e chacoalhando, chacoalhando, chacoalhando.

Como é bom quando se entende a própria cabeça.

Depois do terceiro ou quarto filme, olhei na tela e vi que faltavam apenas três horas para chegarmos em Dallas. ISSO, SENHOR. ESTAMOS QUASE CHEGANDO. Lembrei-me então do seriado que minha irmã caçula recomendou que eu assistisse e que só tem nos Estados Unidos: The Marvelous Mrs. Maisel… lá fui eu assistir ao seriado. Vi uns três ou quatro capítulos até o café da manhã começar a ser servido.

Maicon acordou e me perguntou se eu não tinha dormido nada, respondi que não. Conversamos sobre drogas para dormir e sobre outras coisas que não me lembro agora. American serviu fruta cortadinha, pão, manteiga, suco (não me lembro de ter pedido café desta vez…?!) e eu comi tu-do.

Depois, o de sempre. A fila do banheiro, a galera querendo escovar os dentes. Eu preferia deixar isso pra fazer em Dallas, no aeroporto, em solo mesmo (tenho pra mim que banheiro de avião a gente deve usar quando realmente necessário, leia: quando se estiver apertada ou querendo fazer número 2). Uma moça que estava no voo anterior (aquele que nunca saiu) estava esperando a porta se abrir para vomitar… ofereci-lhe um Eno.

_ Comi demais, ela respondeu. Fiz a bariátrica!

O avião tocou o solo quando o dia ainda não tinha clareado, em Dallas. Estava frio. Corremos para fazer a imigração (precisei pedir ajuda). Minha chefe pegaria uma conexão muito próxima ao horário de chegada, precisou me largar pra trás pra que conseguisse embarcar.

Na imigração, o oficial me perguntou para onde ia e quanto tempo ficaria. Examinou meus bilhetes, minha reserva, minha reserva no hotel. Pediu minhas digitais. E a última coisa que disse, foi:

_ So you´re telling me you´re going to Vegas?

_ Yes, sir.

_ Okay.

Entreguei de volta a minha mala para os funcionários de rampa, no momento e no local indicados para se fazer isso. Depois fui para o portão de embarque (e descobri depois que estava bem longe do portão em que deveria estar). Só que imigração americana não é de mentirinha, nem é brincadeira! Primeiro tirei todos os bilhetes do bolso, um mix de bilhetes do 962 do dia 26 (ler a parte 1) e do 962 do dia 27, mais os voos de conexão que deveria pegar. O homem enorme, alto e moreno me disse com cara de FBI: não preciso de tudo isso, Melissa. Peguei, desajeitada, o bilhete para Phoenix e ele fez um risco com caneta preta. Entrei na fila e fui cheirada por um golden retriever lindinho (sorri, nessa hora). Ele estava procurando aquilo que eu não tinha, hehehe. No raio-x, tirei a bolsa toda pra fora: celulares, laptop, câmera fotográfica… tirei os meus tênis, tirei meia… fui para dentro de uma máquina que você precisa erguer os braços acima da cabeça e vi que a máquina fez um movimento para talvez escanear a minha imagem, mas não saí de lá porque não sabia o momento de sair, até que uma tiazinha policial brava disse do lado de fora:

_ GET OUT.

Saí e me recompus.

Mudei de terminal, pelo SkyLine. O aeroporto é enorme. Vários e vários aviões estacionados. Cheguei no terminal doméstico e sentei-me ao lado de vários americanos, escutando diálogos, vendo as filas enormes nos cafés e escutando a moça do balcão dizer que as pessoas teriam que despachar suas malas de mão.

Achei uma rede wi-fi aberta para avisar a família que estava em Dallas. Estavam reclamando que quando preciso, não publico nada nas redes sociais (rs).

Depois de ter deixado a minha bagagem de mão para ser despachada ali no gate mesmo, entrei no avião pensando:

Não troquei meu absorvente…

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