(Parte 1 e parte 2)

Fui uma das últimas a entrar no vôo doméstico para Phoenix e meu assento era exatamente o último. O avião era um A321, com cara de busão e bem apertado. Tava lo-ta-do. Meu assento era o do meio, entre uma senhora e uma jovem de uns 20 e poucos anos. Ambas mudas. Difícil, nesta hora. A primeira vez que tomei um avião na vida, um longo voo SP-Curitiba, sentei-me ao lado de uma portuguesa tagarela e fomos conversando o voo todo até que senti as rodas tocando o chão. Bom demais quando a gente tem boa companhia, gente que gosta de uma boa prosa!!! Não era o caso daquelas duas.

A senhora estava de olhos fechados, mas não estava dormindo. Parecia querer meditar ou ficar quieta. A jovem que estava na janela colocou seus fones de ouvido, vestiu o capuz do moletom branco da Gap e se encolheu com a cabeça na janela. Ficou o voo todo assim.

Eu estava angustiada, primeiro porque o voo era apertado e a gente se sente angustiada nessa pegada, mesmo. E segundo e principal motivo era porque sentia cheiro de combustível ou turbina quente, ou algo assim. Olho para a cara das pessoas ao meu lado, que estavam sentindo o mesmo cheiro que eu. Estão impávidas. O cheiro não parece incomodá-las.

Bem, então tá.

O voo subiu e o sol tocou o rosto de um homem que estava sentado no corredor. Eram sete horas da manhã, céu limpo e claro. Uma linda imagem, que me acalmou. Ah o cheiro que eu havia sentido, se fosse algo sério já teria dado merda, então tá tudo certo. Alcançamos a altitude de cruzeiro e as turbulências durante as duas horas e meia de viagem eram bem poucas. Como não tinha entretenimento nesta aeronave, estas horas foram longas e pareciam intermináveis.

A comissária me perguntou o que eu queria beber e eu respondi o de sempre:

_ Coffee, please; no sugar.

Então ela me perguntou a mesma coisa umas duas vezes até eu entender que ela estava tentando entender se eu queria green coffee or black coffee, nunca imaginei que existisse café verde…!!!! O café é preto – e sem açucar, sempre.

Depois me deram um biscoito que não consegui comer.

Ao longo do voo fui ficando preocupada porque como já disse na primeira parte destes textos sobre Vegas, eu estava menstruadíssima. Meu fluxo por vezes é bem intenso de modo que preciso trocar o absorvente algumas vezes, várias vezes por dia. Eu não tinha feito isso antes de entrar no avião e sentia o fundo da minha calça úmido. Se eu me levantasse, o que minhas companheiras de viagem veriam ou que cheiro sentiriam?

De modo que a preocupação com voar, avião, vôo, etc tinha sido substituída pela única e exclusiva preocupação com o mico que eu iria pagar quando tivesse que me levantar dali (este tipo de coisa acontece ou vai acontecer com toda a mulher).

O voo pousou em Phoenix e é impressionante a demora dos americanos pra abrir a porta da aeronave. A senhora, sentada no corredor, parecia não querer também se levantar dali. Mas uma hora ela finalmente se levantou. Eu puxei minha mochila que estava embaixo do assento da frente e coloquei em cima do banco onde eu estava sentada. Saí e olhei o rosto da comissária que estava ali na porta dos fundos do avião:

_ Posso usar o toalete antes de descer?

_ Claro, está bem atrás de você.

Nestas horas a gente sempre acha que a cara que as pessoas estão nos olhando é porque elas sabem o que estão acontecendo com a gente ou então sentiram algum cheiro incômodo. Poderia não ser nada disso, mas eu coloquei na minha cabeça que era. A jovem da janela me olhava com cara de: “que gringa estranha é essa?” (na melhor das hipóteses) e a senhora com cara de brava já estava naquela altura passando na metade da aeronave, rumo à porta.

Entrei no banheiro e troquei meu absorvente. A minha calça era preta, ainda bem. Desci e vi que meu voo para Las Vegas demoraria 1 hora e meia para sair. Eu tinha um tempinho para andar e conhecer o aeroporto.

A primeira coisa que eu fiz foi comprar um smoothie (maravilhoso) de morango com banana. Usei pela primeira vez o cartão que tinha levado e okay, foi tudo bem.

Depois caminhei de um terminal para outro através da esteira e tirei algumas fotos. Fui ao banheiro, e descobri que o vaso sanitário tem um sensor que sabe quando você se desabunda de lá – a descarga toca sozinha.

Ah, e sim, os americanos jogam o papel dentro do vaso.

Andei até o portão onde estava o vôo para Las Vegas, me afundei na poltrona e esperei o início do embarque.

Pessoas e mais pessoas e mais pessoas foram chegando. Todo mundo está indo pra Las Vegas nesta semana??? Executivos, famílias, grupos turísticos, jovens. Uma jovem elegante, ruiva, de cabeço bob curto, perguntou-me se eu me importava que ela se sentasse ao meu lado. Ela estava carregando uma sacola verde fluorescente da Nike, que não precisou ser despachada.

As pessoas foram entrando na aeronave e eu novamente fui uma das últimas a entrar, último assento, no meio. Na janela um cara gordinho de fone da Bose, que ria do comissário japa que se atrapalhava com o inglês. No corredor, um americano tiozão, simpático, que me ajudou a pegar o copo de água e riu quando eu pisei em alguma coisa embaixo do banco, que caiu e fez barulho.

_ I´m sorry! – eu disse.

_ I´ve no idea what is that! – ele respondeu.

Neste voo eu liguei meu celular na lista baixada do spotify e escutei músicas dos anos 80, enquanto aguardava com muita tranquilidade que o voo pousasse em Las Vegas, 48 maravilhosos minutos depois.

Pego minhas malas e alcanço o meu grupo, o último transfer estava saindo.

Let the party begins!

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