Como de costume, sempre compartilho a música que eu estava escutando quando escrevi o texto da vez. Deem play antes de ler o texto! 

Eu me lembro de você, sempre que chove. Tenho tentado escapar da chuva, quase sempre. Escolheria sempre a mesma previsão do tempo, aquela em que você inexiste. Não é da chuva, que eu estou falando. E se eu digo isso, é só pra variar… Sempre sempre chove! Sempre derrubo as coisas. E você recolheu do chão da calçada a minha pilha de livros, escondendo-os rapidamente dentro da sua capa pra que eles não se molhassem. Naquele dia eu percebi o tipo de pessoa que você era, o que deixa a garota se molhar e protege os livros. O meu tipo de pessoa, lógico. Nenhum de nós dois nos importamos com o banho de chuva que tomamos naquele dia, depois que o vento terminou de tornar a cena ainda mais dramática, quando levou meu guarda-chuva embora. Você me puxou pelas mãos e nos escondemos debaixo de um ponto de ônibus que não servia pra quase nada. A enxurrada descendo e ensopando meu tênis, sobe aqui, você disse – e ficamos olhando de cima as baratas descerem junto com o aguaceiro, saindo dos ralos. Não olha! – Você tinha percebido minha repulsa. Não olha, disse de novo. E sorriu um sorriso adequadíssimo, de 22º na beira de alguma praia.  Seu sorriso nunca combinou com todas as histórias que a gente viveu, inclusive. Ele sempre pareceu estar nos olhando de fora e nos trazendo uma promessa de uma boa história, de um filme que tivesse gosto de chá de pêssego e não de tequila vencida. Um dia você me disse que bebida nunca perde o prazo, a gente é que bebe na hora errada. Nunca ousei questionar sua teoria.

Chove, sempre chove. Mesmo quando eu estava – e quando estou – protegida, mesmo que estivesse longe de você, no meu coração sempre chovia. Ah, com o tempo, eu parei de ver as baratas, tá. A chuva tinha cara de saudade. Tinha cara da sua capa bege, toda cheia de respingos do lado de fora, impermeabilíssima como eu gostaria de ser. A chuva me trazia a sensação de sentir a pontinha gordinha dos seus dedos me puxando com leveza e firmeza para algum lugar seguro. E passei a entender que é pra isso que a chuva existe, portanto, pra que você pudesse me conduzir a um outro lugar. Que era sempre melhor.

E que era seguro.

Também fujo de bibliotecas. De corredores de bibliotecas. De cochichos, em corredores de bibliotecas. Pessoas que se veem entre os espaços vazios dos livros que já não estão mais na estante. E que por causa daqueles vazios, de algum modo acabam se encontrando. A gente já tinha se encontrado, né? Exceto você, sempre em busca dos livros que nunca encontrava. Acabava se distraindo com alguma outra coisa que estivesse na minha mão, fosse uma revista antiga, fosse um livro de algum autor nacional. Alguma história que nos distraísse e empanasse nosso coração. Segurei a sua risada na palma da minha mão, de quando criei o coração empanado. Engraçado como ali no nosso silêncio escondido, anônimos e invisíveis, sentados no chão, os pés e jaquetas entrelaçados, era quando parecia de fato que a gente dividia alguma coisa super importante. Páginas em preto e branco de revistas antigas, neologismos (os dos outros e os nossos), corações empanados. Foi assim que fui notando que as coisas importantes existiam mesmo, que a gente as dividia mesmo e que elas eram mesmo, super importantes.

Era assim, ainda que a gente não dissesse nada a tarde toda. Os bolsos cheios de segredos que eu nem precisava te contar.

E foi assim que todos os lugares por onde a gente passou tinham cara de chuva e de biblioteca. A praia, as praças, os supermercados, os pubs, as feiras, os parques: chuva, biblioteca. Foi assim que sempre tive pra mim que o seu abraço era melhor do que todos os livros do mundo. Foi assim que eu passei a gostar da chuva. E que todos os dias de chuva me traziam seu sorriso e a minha imagem refletida nos seus óculos de lentes sem antirreflexo (você me respondia que ainda bem). E que antes de todos os espaços vazios serem preenchidos de pouquinho em pouquinho por você, eu não tinha nem notado que faltava preencher alguma coisa. Não, eu não tinha notado que o vazio existia, antes de você surgir de passagem, como uma chuva de verão, destas que logo passam. Mas tem sido difícil lidar com ele, agora que não te vejo mais.

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