Observação: o texto é LITERÁRIO e os horários são FICTÍCIOS.

Quando o relógio chegar às 5 horas, ali quando o céu amanhece e aquareleia com duas ou três cores, provavelmente vai passar o primeiro ônibus. Mas antes dele, sempre escuto alguns passos dessa gente que levanta cedo à beça para trabalhar. Se o ônibus para, escuto da minha janela – e já faço a fotografia destas duas ou três pessoas que passaram mais cedo e que ficaram no ponto esperando pelo primeiro ônibus do dia.

É provável que eu volte a dormir, capturada por sonhos que possa ter deixado pra trás. Nunca lembro deles, no final. Conto, portanto, aquilo que vejo, ou aquilo que escuto.

Quando der sete horas, o Marcelo vai levantar a porta da vidraçaria. Uma coisa pra lá de irritante no começo (e que me fazia esbravejar em voz baixa). Mas o tempo é um grande mestre e agora o Marcelo levantar a porta barulhenta tornou-se assunto para uma crônica.

Às sete e meia, o cara chato vai ligar o motor do caminhão da seguradora e ficar alguns minutos – longos minutos – esquentando esse motor antes de definitivamente e finalmente sair. No mesmo momento, olharei para o lado e verei um dos meus cachorros apoiando o queixo que mal tem, no braço do meu sofá. Observa-me dormir e espera ser convidado a pular na minha cama.

Às 8 horas eu farei o convite e ele dará um pulo quase felino para cima da cama, seguido por algumas tentativas de me chamar a atenção para ganhar um chamego na barriga.

Às 8h05 eu estarei rendida e lhe darei uns carinhos em sua região do tórax.

Às 08h07, eu irei até a minha caixa de remédios e tomarei um comprimido dentro de um gole d´água. Às 08h09, eu terei ligado o chuveiro e antes de fechar a porta do banheiro terei dado uma espiadela em direção aos meus sonolentos cachorros que ocupam a minha cama.

Às 9h00 uma bebê de 1 ano e dois meses escutará o portão de ferro se abrindo e fechando: TÁC. Neste mesmo instante ela vai dizer, como todos os outros dias:

_ Dedé-é!!!!!!

Às 09h05 ela será esmagada e receberá cócegas em suas micro axilinhas, enquando se pode ver os dentinhos de leite que povoam seu céu da boca.

Às 09h07 terei meu pão completamente esquentado e já estarei na segunda xícara de café.

Às 09h12 eu vou reclamar que mãe, precisa fazer mais café. E às 09h15 meu pai vai me dizer que Mr. John está me esperando.

Dez horas, passa o carro dos ovos  e a música da Bruna Karla, que diz que Deus é seu advogado.

Às 11h15 um cheiro de feijão, de duas folhas de louro, um dente de alho e meia cebola picada, vai passar pelas minhas narinas.

Ao meio dia, o Marcelo vai descer a porta da vidraçaria e eu rememorarei o cheirinho de feijão fresco que passou por mim. Na impossibilidade de puxar o cheiro de volta (tantas vezes temos esta vontade!), resolverei seguir o exemplo do Marcelo e vou almoçar.

Ao meio dia e cinco, ao escutar o barulho da porta de ferro – TÁC – um bebê de um ano e dois meses vai dizer assim:

– Dedé-é!!!!

Ao meio dia e 7, ela deixará cair da boca o feijão que estava mastigando, pois terá que dar conta das cócegas em suas micro-axilinhas. E vai dizer assim, entre risinhos:

_ Sai!!!

Ao meio dia e treze, passa o carro dos ovos e a música da Bruna Karla, que diz que Deus é seu advogado.

Ao meio dia e quarenta, ela vai tirar o arroz da boca e dividí-lo com sua parceira de almoços, ali abaixada ao seu lado.

Às treze horas, eu levantarei de onde acabei de me sentar, porque me lembrei de que preciso passar um cafezinho. E às 15 horas o meu pai me lembrará da mesma coisa:

_ Tem café!!!

Às 16h08, passa o carro dos ovos  e a música da Bruna Karla, que diz que Deus é seu advogado.

Às 18h00 fecharei a minha janela e as cortinas, deixando o lusco-fusco para o lado de fora – e também algumas dezenas de insetos.

Às 18h05, tirarei os tênis e me jogarei no sofá, ligando a televisão e o ventilador de teto.

Às 18h06, Hugo, o cachorro caçula, virá diante de mim com seu brinquedo preferido. Às 18h07 eu terei jogado este brinquedo no outro canto da sala e às 18h08 ele terá me trazido de volta.

Às 19h00 eu saio para jantar, mas antes terei perguntado a dois cachorros se desejam continuar assistindo a novela.

Às 19h03, um bebê, de um ano e dois meses, escutará o barulho da porta de ferro abrindo e se fechando. TÁC. E no mesmo instante, se escutará:

_ Dedé-é!!!

Às 19h21, passa o carro dos ovos e a música da Bruna Karla, que diz que Deus é seu advogado.

Às 19h40, um homem de 64 anos vai tirar a camiseta e pedir que sua filha lhe coce as costas. Às 19h50 ela dirá:

_ Já chega, pai!!!

E no mesmo instante ele vai dizer assim:

_ Só mais um pouquinho!

Às 21h00, distribuo beijos, com a angústia de saber que os dois pratos dos meus cachorros estão vazios.

Às 21h05, meus cachorros me receberão na porta como se eu tivesse passado uma semana fora de casa.

Às 21h09, Hugo já terá terminado de comer e terá dado uma arrotadinha, seguida de duas coçadas.

Às 21h15, Tom terá finalizado seu prato e terá me dado uma lambida no pé, que eu chamo de beijo de gratidão.

Às 21h40, fecharemos a porta, depois do xixi-cocô.

Às 22h05 escutarei o vizinho passando pela rua e cantarolando algum samba enredo.

Eu vou tatuar no meu coração
Pra vida inteira
És meu amor
Eterno como o tempo, Roseira

No mesmo instante, o caminhão da seguradora será estacionado de volta, embaixo da minha janela. O motorista descerá depois de dedilhar por alguns minutos seu Whatsapp.

Às 23 horas, o gato escolherá um dos carros para choramingar em busca de comida ou de companhia (sendo que por algum motivo desconhecido, o carro que está embaixo da minha janela sempre é mais interessante).

Às 23h15, vai passar o carro da pizza quentinha (ou o carro dos churros que canta assim: rá rá rá, ririri, eu não consigo parar de rir).

À meia noite, escutarei o barulho do portão de ferro se abrindo e fechando: TÁC. Alguém que chegou do trabalho. No mesmo instante, chega o filho de determinada pessoa, que grita:

_ Ô mãe!!!!!

E se “mãe” não vier abrir o portão, considerem esta mesma exclamação por mais duas ou três vezes, sendo que a última será assim:

_ Ô mããããããããeeeeee!!!!!!!!

À meia noite e cinco, vai passar o segurança de moto. Ele vai até o final da rua e depois vai voltar pelo mesmo caminho de onde saiu.

E alguns minutos depois, colocarei o meu celular no modo avião, apagarei a luz e acariciarei duas franjinhas caninas.

_ Boa noite, meninos.

E quando o relógio chegar às 6 horas, começará tudo, tudo outra vez na ciranda do sempre.


Rolê no Parque da Água Branca
Azul da cor do mar
Sonho Noturno
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