Quem assistiu televisão – e novelas – nos anos oitenta, deve se lembrar da novela Tieta. E se acompanhou a novela (uma das mais lindas na minha opinião), deve lembrar da personagem do José Mayer, o Osnar.

Quando Tieta viu que sua missão em Santana do Agreste já tinha sido cumprida e quis voltar para São Paulo, Osnar, sempre apaixonado por ela, quis ir junto.

Cheia de sabedoria, ela disse o seguinte pra ele:

_ Osnar, aqui em Santana do Agreste você é a flor do sertão. Em São Paulo… você vai sumir…! 

Em São Paulo ele não seria ninguém, apenas mais um a percorrer as ruas infindáveis, sem rumo, sem identidade e pleno dos olhares implacáveis dos paulistanos.

Osnar ♥

Eu era uma menina quando assisti Tieta. Hoje com quase 40 anos, lembrei me da cena porque há um Osnar vivendo na minha rua, há uma semana ou um pouquinho mais. Estamos tentando ajudar do jeito que podemos, mas percebo que uns mais desconfiados e implacáveis do que outros.

Escutando uma de suas conversas pela rua eu vi que é um rapaz até meio ingênuo que veio de alguma cidade do interior (nem sei se de São Paulo ou outro estado), sem maldade nenhuma e bastante pacato quando as pessoas fecham a porta em sua cara dizendo que não dá pra dar comida todos os dias (eu não as julgo). 

Ele apenas se afasta e tenta outro portão.

Há uma das vizinhas da minha rua que teve, no passado, uma fase meio espevitada e fogueteira em sua vida. Hoje ela é mãezona de dois ótimos adolescentes, vai a Igreja, escuta Alfa FM ou rádio Gospel, está feliz e tranquila com sua vida. Mas curiosamente, aos olhares de outras pessoas, continua sendo julgada pelos frutos passados, e não os frutos de agora. 

Hoje cedo esta vizinha estava lavando seus tapetes e aproveitou para deixar a mangueira na calçada. Eu não tinha entendido porquê diabos ela tinha largado a mangueira na calçada a manhã toda. 

Até que o rapaz em questão, personagem principal deste texto, acordou. Escondeu suas caixas de papelão (onde dorme, na calçada) em um cantinho. Dobrou e enrolou sua manta verde, colocou-a dentro de sua mochila. Veio vindo pela rua, até que achou a mangueira que a vizinha pendurou da sua sacada. Parecia uma bica, na altura em que a boca da mangueira estava.

O homem parou, olhou em volta, deu um sorrisinho bobo. Lavou as mãos. Lavou os pés. Lavou o rosto. Refez o processo, umas duas vezes. Depois bebeu da água. E continuou seu caminho. 

Eu passei o resto da manhã emocionada e enternecida, pensando em Osnar, o doce personagem de Jorge Amado – passando batido pelas ruas de São Paulo. Sendo acolhido com simplicidade num lugar onde Jesus facilmente se convidaria pra entrar, se aqui estivesse.

(Só os olhares mais puros enxergam Osnar).

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