Pra minha mãe

Seu Valdemar é talvez apenas um pinguinho azul, na história. Azul, do uniforme de todos os dias. Ele nunca quis ser mais do que era. O pingo azul que se junta a outros tantos pinguinhos no horário de almoço, em uma copa a disputarem o único microondas que já foi e voltou de conserto três vezes. Por vezes, quando está sendo utilizado, o microondas derruba a luz da Copa e dos vestiários e pronto, lá se vai outra vez o velho microondas pra conserto. Seu Valdemar não liga, tira o “baldinho” – como apelidaram sua marmita dentro de um pote enorme e redondo – de dentro da geladeira, deixa passar uns 5 minutos e come.Ele, como todos os outros, faz suas refeições dentro de uma copa sem janelas, sem ventilação e sem nenhuma iluminação natural, dentro do subsolo de um edifício comercial gigantesco.  Outras pessoas parecem se incomodar mais do que os próprios usuários, como se eles nunca de fato tivessem experimentado fazer suas refeições em um lugar bem ventilado, bem iluminado e bem situado.

O servente de limpeza acorda às 4:30, passa um cafezinho, apanha a sacolinha e a mochila e segue seu rumo para o trabalho, carregando a marmita preparada no dia anterior. Dono de sobrancelhas grossas e uma feição de ascendência nordestina, carrega um semblante divertido mesmo que esteja sério. Veste a mesma calça de sarja com cinto, bem apertada na cintura arredondada, uma camiseta e seu inseparável casaco de botões. Gosta de retirar o Jornal do Trem com a mocinha, antes de entrar na estação. Sobe as escadas apoiando as mãos no corrimão e sempre se recusa a usar o elevador. Deixa pra quem precisa, não carece não.

Quando chega no trabalho, Seu Valdemar chupa uma mexerica e toma dois copos de água, antes de pegar o seu material de trabalho. Quando o trem não atrasa, ele consegue sentar no banquinho, dentro do vestiário, e colocar a boina do uniforme em cima do rosto para um cochilo de 1 horinha. Geralmente, seu Valdemar nunca precisa de despertador. Escuta com facilidade o barulho da rua. As buzinas, o barulho dos motores, dos ônibus passando e dos aviões por cima do telhado. Às vezes, é um avião que o tira de órbita por alguns instantes, quando está limpando os espelhos d´água do prédio e vê na água o reflexo de um avião passando. Sempre tira a boina, como que para ver melhor, erguendo os olhos apertados para o céu. A testa franzida e o pensamento que vai no mesma direção do avião. Um desse me levava rapidinho lá pra casa da mãe. Lá pra cima. Será se é muito tempo de viagem? Será se é alto mesmo, que ele vai? Como é que faz pra esse bicho voar, heim? Eeee Seu Valdemar, que que foi? Viu um passarinho?

Ele procura de onde veio a voz e dá um sorriso desajeitado. Ahhhh eu vi foi um passarão! Hehehe!!!!

E volta ao trabalho, devolvido de seus devaneios.

Ele, que não se casou, tem só um único sonho nessa vida, que é voltar pra casa da mãe (em tempo). A mãe ainda é viva, seu Valdemar? Ah, minha mãe é viva sim senhor. Tá lá firme e forte, todo ano vai na procissão. Toma muita sopa de orelha de boi. Não é esses matinhos que ceis comem, não! Mainha tá melhor que eu, sim senhor!

Vai, durante o dia, fazendo seu serviço devagarinho – no seu ritmo – e bem direitinho. Gosta de tirar os pés de dentro da bota preta de borracha e mergulha-los rapidamente no espelho d´água, sem ninguém ver. Perguntam se ele já viu o mar. Ele coça a cabeça: o mar? Seu Valdemar nunca viu o mar! Diz, divertindo-se. O senhor sabia que dá pra ver o mar lá do avião? Ahhh então quando eu voltar pra casa de minha mãe, eu vou olhar o mar pela janelinha do avião! Depois vou contar pra mainha como que o mar é bonito.

A sua mãe nunca viu o mar, né, seu Valdemar?

Minha mãe nunca viu nada pra depois do Umbuzeiro do quintal dela. Hehehe!!!!

Diz, sempre rindo dele mesmo, enquanto tira uma toalhinha branca do bolso pra enxugar o suor da testa. Aqui tá quente que nem lá.

O almoço é a hora das conversas, das brincadeiras, de gritar ÓI O BARDINNNNN, e se concentrar na sua colher. A copa vira um mar azul, já que todo mundo come junto. Seu Valdemar é o primeiro a chegar e o primeiro a lavar seu topoé. Põe dentro da sacolinha e vai comemorar: ainda dá pra tirar um cochilinho.

No final do dia, depois do banho, tira o pentinho de dentro do bolso da mochila e penteia os cabelos pretos para o lado. Passa os dedos no espelhinho do banheiro, com borda laranja, pra tirar o vapor. Enrola o uniforme na sacolinha e guarda dentro do armário. Depois, caminha devagarinho, passando de fininho pela recepção. O segurança diz boa noite. Até amanhã, seu Valdemar! O senhor tá cheiroso, heim? Passou colônia?

Ele sorri, tímido.

_ Eu vou na missa!

Era domingo, quase seis horas da tarde. Ele sabia que lá longe, na ponta do país, sua mãezinha fazia a mesma coisa. Era o único jeito que dava, por enquanto, pra estar mais perto dela.

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