Para a dupla em questão

A vovó descasca a laranja e corta os gominhos no meio, retirando as sementes. A bebê recolhe os gominhos da mesa e vai enfiando na boca, assim assim. O queixinho todo molhado e cítrico, ela olha para a vovó erguendo-o, a vó (e só a avó) entende. Se comunicam com as mais diversas comunicaçõezinhas, por vezes ficam desfilando nas entrelinhazinhas – já têm – o olhar é só uma delas. Às vezes até o gritinho funciona – modos que a vó (e só a avó) entende, faz que não ouve. Não lhe dê atenção, ensina a avó que já criou um time de futebol. Sabe as manhas todas, conhece os mimimis. A neta lhe pegou as maniazinhas, os hábitos, os trejeitozinhos. O olhar desafiador: dois anos. Dois! Ela mostra quatro dedinhos, não tem quem convença que quatro não são dois. E chupar uma laranja depois das refeições é um pequeno ritual criado entre as duas, de amigas. Goiaba é outro. A vó, uma fã (fã que nada, que o vício já atingiu níveis maiores), corta a grande goiabona em rodelas e entrega para a bebê, que come com gosto. Arranjou uma rival, pois, alguénzinha com quem vai ter que dividir as goiabas dali por diante. Tá comendo, vovó? Ela micro-pergunta, com a boquinha cheia. Mastiga, mastiga, mastiga, recomenda a avó. Ela aponta a mãozinha melecada de sementinhas de goiaba para a grande goiabona que está nas mãos da avó, a fada das goiabas. Não, primeiro termina de engolir a sua. Ela nhac nhac nhac nhac até engolir. Cria de vó. Cria dessa avó: Faz uma coisa pensando na próxima coisa. E come uma goiaba pensando na próxima goiaba. Quando acaba o lanchinho, diz assim: me dá papel, vó. A vó se levanta pra alcançar o guardanapo, que a pequena passa sobre a boca e sobre os dedos. A avó destem trabalho. Criou uma cheia de si. Termina e entende o olhar de orgulho e empoderamentozinho além-vó – responde com o sorriso de dentinhos (o mais popular dos sorrisos). Elas se sabem.

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