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Acordei cedo e tomei um banho. A gente ia ter reunião com o chefe da chefe e algumas outras pessoas. Ele nos enviou um e-mail perguntando se precisaríamos tomar o café da manhã, eu respondi que não porque não quis dar trabalho (mas a verdade é que não ia tomar, mesmo). Fiz um rolê pelos andares do Chelsea até descobri como de fato ir para o andar 30, onde aconteceria a reunião.

Nos reunimos na mesinha da sala de estar do studio onde ele estava hospedado (o chefe da chefe), e descobri que uma das colegas não viria pessoalmente e que portanto eu não conseguiria lhe entregar o famigerado sabonete da Natura.

Durante a reunião o café da manhã chegou e eu tomei duas ou três xícaras de café preto (no sugar) e um croissant (maravilhoso). Bati uma foto da vista privilegiada do rapazão.

Vista para as fontes do Bellagio, que estavam desligadas.

Nós iríamos almoçar por aí (e houve uma preocupação em irmos em um lugar onde uma vegetariana pudesse ficar feliz) e depois nos reencontraríamos com o Glenn (o chefe da chefe) pra um happy hour antes do meu par mexicano, o Roy, embarcar. Resolvemos almoçar em um restaurante do Venetian, um hotel lindo que tem uns canais que imitam os canais de Veneza e um céu fake que parece céu de verdade. Escolhemos o italiano.

Via-se que os homens que levavam as pessoas para passearem nos barcos cantarolavam opera italiana durante o passeio. A voz grave ecoava pelo shopping do hotel. Era lindo de se escutar como as vozes preenchiam todos os espaços. Adiante, uma loja de sabonetes bem perfumados infestava o corredor com um cheiro muito bom.

Chegamos na praça de alimentação, que era uma Veneza fake. Mas um fake maravilhoso, que fazia com que você se sentisse na Itália. Escolhemos entre os dois restaurantes italianos disponíveis, escolhemos a entrada, escolhemos o vinho.

um céu de mentira

Para comer eu escolhi uma saladinha e um gnocchi maravilhoso, com molho feito na hora. Durante o almoço um grupo simulava os grupos de teatro de rua pelas ruas da Itália, cantando peças de óperas italianas conhecidas e fazendo performances burlescas. Passou pela cabeça que provavelmente a Itália é um lugar onde eu vá me sentir em casa, me apaixonar – já que já estava encantada com um cenário fake de uma praça de alimentação.

Tomei um sorvete de pistache (pago pela chefe hihi).

Quase terminando o almoço, vimos uma mensagem do chefe da chefe avisando que tinha pego um carro para nós irmos a um tal de Hoover Dam e que deveríamos espera-lo no lobby do hotel às 15h45 (15 minutos depois de quando lemos a mensagem). Não daria tempo de tomar banho, nem nada. Corremos.

Chegando no hotel, várias coisas aconteceram ao mesmo tempo: Roy avisar que não iria porque ele teria que arrumar suas coisas e ir para o aeroporto. Descobrirmos que o Hoover Dam é um lugar para onde se valeria a pena levar a minha câmera. E descobrirmos que três colegas gringos (in álcool) se juntariam à nós. Nós nos apresentamos, mas, sinceramente a cara que eles fizeram foi: “hi, who the fuck you are”.

Também não acho que eles se lembrem que tinham companhia naquele dia! rs

Fomos para o carro enquanto eu via no Google que lugar era aquele para onde nós íamos. O carro era tipo um jeep, um 4×4 da vida, e eu e Letícia nos sentamos no banco de trás. Os três azeitados no banco da frente e o chefe da chefe sentado ao lado do motorista. Começou a circular pelo carro uma champanhe quente em copinhos de plástico, que segundo minha chefe “deu dó de tomar”.

Na estrada, começaram a dizer que alguma coisa que nós estávamos fazendo era ilegal – provavelmente circular na estrada com bebida no carro (acho). Eu vi que as estradas americanas, pelo menos a que eu estava, eram muito parecidas com várias das estradas que eu já tinha visto no Brasil. Também reparei nas casinhas de condomínio, todas idênticas e lindas – e como deveria ser morar em um lugar tao seco como Las Vegas (onde eu, tendo ficado apenas uma semana, estava com vários sintomas de desidratação).

O carro parou em uma portaria onde alguns policiais perguntaram quem éramos, acho que alguém mostrou o passaporte ou documento, o chefe da chefe disse, de modo friendly: we´re taking the kids to hangout, thank you sir! Thank you. Eu tampei o meu copo de bebida (daquela vez era gin tônica) com meu passaporte.

O motorista nos deixou em um ponto qualquer para que pudéssemos descer e fazer umas fotos, e nos pegaria depois. O chefe da chefe estava constrangido com os colegas gringos in-álcool e nos pediu desculpas e licença para um esporro (mas eu juro que não estava ligando, depois de bastante trabalho a gente sempre tem o direito de enfiar o pé na jaca).

Sobre o Hoover Dam, aqui está uma explicação em português que o chefe da chefe nos contou em inglês. Orgulhosamente ele nos disse que foi construído após a recessão, em 1931, para abastecer os Estados de Nevada e Arizona e para trazer empregos. Mas a explicação deste link está melhor!

Estava escurecendo e eu não pude fazer muitas fotos.

O motorista passou para nos buscar assim que escureceu. No caminho para retorno, o chefe da chefe nos faz – a todos nós – um convite inusitado:

_ Vamos ao show da Lady Gaga?

Eu juro que eu pensei, por um momento, que o show era de alguma cover da Lady Gaga. A resposta das meninas que estavam com a gente era a mesma coisa que eu pensei:

_ It´s a dream come true.

Eu não compraria um ingresso para o show da Lady Gaga e percebi que dentro daquele carro tinha um único fã de verdade da cantora (o chefe da chefe) mas é claro que quando a gente está no inferno a gente deve mesmo abraçar o capeta com gosto! Portanto, eu fui ao show de Lady Gaga.

Mas até começar o show, muitas águas rolaram. Primeiro de tudo, quando o chefe da chefe foi comprar os ingressos, descobriu que eu não poderia entrar com minha Canon. Voltamos para nosso hotel, Letícia e eu. Eu, para deixar a câmera. Ela, para trocar de roupa. Combinamos que nos encontraríamos antes de entrar no teatro e ele deixou nossos ingressos com a gente. Nos levou até o ponto de táxi do hotel onde aconteceria o show e onde estávamos naquele momento (o MGM Park) e disse:

_ Go there, I´m gonna find the idiots.

Os três in-álcool tinham sumido no meio dos fãs de Lady Gaga que estavam na enorme fila do teatro. Poucos minutos depois, entramos em outro táxi para retornar ao MGM e quando chegamos lá e estávamos prestes a entrar no teatro ou mandarmos uma mensagem para o chefe da chefe, Letícia se lembrou dos tickets.

_ meu Deus, eu deixei os tickets dentro da minha bolsa, ficou no hotel!!!

Como ela estava operada e não poderia correr, eu peguei a chave do seu quarto e fui voando. Não esperei o táxi na porta do hotel, desci uma rampinha e entrei no primeiro táxi que vi. Ele no entanto parou na porta dos fundos do hotel, onde eu deveria tê-lo esperado. Um senhor de seus cinquenta anos, loiro e meio gay, abriu a porta e me disse:

_ Ok, let´s go.

Eu entendi que ele estava me botando pra fora do táxi porque não peguei no lugar certo.

_ But why I can´t take this taxi? I´m late!!!

_ Have you just taken this taxi????

_ Yes!!!

_ Jesus!!!!! Go back, then, go back, go back inside.

Subo no quarto da Letícia (cujo número fui repetindo o tempo inteiro pra não esquecer: 2439 2439 2439) e boto a bolsa inteira pra fora. Achei os ingressos. Voltei para o MGM (e aprendi como pagar o táxi com cartão de crédito – desta vez eu senti um orgulho maior porque não esqueci de pedir o recibo). Quando estava passando apressada em frente ao Starbucks, escuto a Letícia me chamar:

_ Mel!

Ela tinha me comprado um bolo de limão e um stick de mussarela. Ah, e umas balinhas.

Entramos no teatro onde aconteceria o show. O lugar onde estávamos sentadas era bem perto do palco. Estavam os cinco sentados, quando subitamente o chefe da chefe se levantou e sumiu.

_ I´ll be right back.

Depois de mandarmos mensagem ele explicou que estava sentando no banco de outra pessoa e precisou se levantar quando ela chegou, pois não tinha conseguido comprar 5 ingressos para uma fileira só.

Ele estava todo contente de ter levado a gente pra ver o show de Gaga, tocava nosso braço sorrindo, fazia vídeos, postava em seu próprio facebook – enquanto os três in-álcool caiam de sono ao meu lado durante o show.

Atrás de nós havia umas cinco senhoras americanas todas vestindo umas plumas azuis, idênticas – e que me pediram para tirar uma foto (eu deveria ter ficado com uma cópia rs). Na nossa frente, um casal de septuagenários, ele repetindo que tinha 71 anos e ela (uma Barbie de 70 e poucos) cantando e dançando sem parar.

Gaga cantou os hits mais conhecidos e alguns foram bem empolgantes. O show é todo performático e tem bastante efeitos visuais (inclusive HQs). Ela também faz algumas dramatizações (bem forçadas e exageradas) e uns discursos piegas e melosos no final, durante os quais a australiana ao meu lado resmungava (com razão):

_ Jesus!!! Shut up!!!!

A última música que ela tocou foi o hit do filme com o Bradley Cooper – mas infelizmente, desta vez, sem ele.

Nós voltamos andando, a chefe, eu e o chefe da chefe, do MGM Park até o Cosmopolitan. Ele perguntou o que achamos do show e disse que acha que Lady Gaga é a nova Madonna. Depois nos despedimos em frente ao elevador, e eu agradeci pela gentileza de tudo o que ele fez para que pudéssemos ter uma tarde agradável.

Subi e fiz as minhas malas. Era hora de ir pra casa.

Sobre Vegas

Durante quase seis dias eu conheci uma cultura diferente da minha, um lugar mágico e burlesco onde as pessoas – inclusive os americanos – procuram para se sentirem livres para tudo: beber até cair, divertir-se onde quiserem, gastarem dinheiro tentando ganhar dinheiro, ou com bebidas ou com sexo. A impressão que se dá é que é uma cidade onde as pessoas são elas mesmas, onde se libertam de toda a parte chata que é ser adulto e ter que fazer reuniões, relatórios e pagar contas. Las Vegas é como se fosse nosso ID, o lugar onde nós somos absolutamente livres para sermos e fazermos o que nós queremos fazer, onde tudo é permitido (em alguns momentos não só permitido, como induzido rs). Não é muito difícil de entender porque tanta gente é tão fascinada por esta cidade. Porque alguém, um dia, cavucou um buraquinho no meio do deserto e disse assim: aqui vamos construir um lugar onde todos os nossos sonhos serão materializados, um lugar para as pessoas se divertirem e saírem de suas rotinas e fazerem o que bem entenderem sem ninguém pra cagar regra. É por isso que enquanto espero meus amigos para darem uma volta, vemos tanta gente passando vestindo perucas, as roupas mais malucas e pitorescas. Provavelmente indo para alguma festinha particular no apartamento de alguém.

As pessoas se encantam pelas lojas e outlets, pelos shoppings e hotéis de luxo. Mas o que mais me chamou a atenção foi a maneira como alguém um dia conseguiu materializar tudo o que encanta os nossos olhos e transformou em um shopping a céu aberto, um lugar agradabilíssimo de se caminhar e observar. E não tem ninguém ali neste lugar que esteja de cara fechada, sério demais ou triste. Las Vegas contamina até quem não liga para nada disso, nada desta coisa americana e plástica cheia de brilhos.

Passei seis dias em Vegas e esqueci dos meus problemas e dos problemas do meu país. Seis dias em um lugar onde o LGBT não é um problema, ele é parte da cidade: onde a hipocrisia passa bem longe e o entretenimento vira atrativo turístico. O quanto temos que aprender, ainda.

Sinto-me grata pela experiência tão divertida e intensa e sei que se a minha primeira viagem internacional foi logo para Las Vegas, algum motivo para isso existe. Embora se me dissessem a um ano atrás, assim: você vai pra Las Vegas e vai ao show da Lady Gaga, eu teria rido.

Já tem uns seis anos que eu ando com uma carta de curinga na minha carteira. Esta carta é para me lembrar que eu posso me adaptar a qualquer situação, assim como o curinga é um curinga e se adapta a qualquer carta. Eu deixo a minha vida me conduzir e me levar para onde eu preciso estar. Quis o universo, que neste momento fosse em Vegas.

(As fotos estão aqui)

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