Sentaram-se, anônimos, no único banco que ainda estava inteiro, naquela praça. Permaneceram em silêncio. Limitaram-se a observar os meninos brincando nas poças d´água, os pés lamacentos, a bola que custava a rolar pelo chão de terra molhado. Não se importavam com os respingos. Cada um dos desconhecidos companheiros de banco prestava atenção em algum detalhe da cena mesma. O da direita achava engraçada a agilidade do garotinho que vestia uma camiseta duas vezes maior do que ele, botando os outros no bolso. O da esquerda pensava como o mau tempo, o frio, o dia silencioso e estranho não espantava o grupinho e não parecia ser nem de longe um obstáculo para se divertirem. Nunca foi tão fácil se divertir, quase pensou alto. O companheiro de banco procurava o isqueiro para acender o cigarro. Apalpou o bolso da camisa, depois do paletó. Nada. Então este retirou a caixinha de fósforos de dentro da sacolinha do mercado (estava precisando de uma mochila), protegeu a chama do vento e da umidade e acendeu o cigarro do outro, que lhe respondeu com um sorriso e sobrancelhas levemente erguidas. Enquanto ele fumava, o outro retirou de dentro da mesma sacolinha o jornal do trem. E percebendo que seu companheiro de banco estava interessado nas manchetes, entregou-lhe o outro caderno, que não estava lendo. O segundo homem abriu o caderno apoiando-o no colo e, ao terminar o cigarro, ergueu-se do banco para alcançar o cesto de lixo. Depois, apalpou novamente os bolsos. Da camisa, do paletó. Desta vez ele achou o que procurava: um drops. Já ia guardando quando se lembrou do vizinho. Apontou o drops para o outro, que lhe devolveu o sorriso (desta vez, tímido) e retirou uma bala de menta pra si. Ia guardando o papelzinho da bala na sacolinha de supermercado, mas lembrou-se do cesto. Não precisou se levantar para alcançá-lo, coisa que o vizinho fumante se ofereceu para fazer. Então pegou um lanchinho de pão com mortadela, embrulhado em papel alumínio e ia dando a primeira mordida quando o garoto da camiseta grande lhe pediu o lanche. Tô com fome, moço. Ele entregou o pão para o garoto sem demora, e também lhe deu os guardanapos. O vizinho de banco, então, abriu sua bolsa e retirou de dentro uma maça, que ofertou ao desconhecido. Este, novamente, lhe dirigiu um sorriso tímido e agradecido. Terminou a maçã e escutou ao longe um carro de som anunciar qualquer coisa irrelevante. Conhecia a música. Si o senhor não está lembrado/Da licença de contá/Que aqui onde agora está/Esse adifício alto/Era uma casa velha um palacete assobradado… e quando chegou no refrão, percebeu que seu companheiro de banco o acompanhava no assovio… e ficaram assim, assoviando e dando voz ao Adoniran Barbosa e talvez a eles próprios e àqueles meninos jogando bola de pés descalços. A música não tinha terminado ainda, quando o mais elegante dos dois se levantou do banco. Não sem antes olhar seu companheiro nos olhos e lhe apertar as mãos. Sorriram simplicidades diferentes, mas… simplicidades. Ele foi se afastando, se afastando, se afastando. O outro agora podia ouvir sua voz, saudosa maloca, maloca querida… a voz perdia a força na distância. O que ficou, esperou anoitecer um pouco mais e o cansaço do corpo ceder. Já cantava o urutau, aquele pássaro noturno e solitário, quando ele se levantou e foi embora.
Como nada tivessem dito, nem pensamento solto, nem palavra dirigida, nada souberam do outro. Que um era Corinthiano e o outro São Paulino. Que um tinha Diabetes tipo 2, e o outro tinha sopro no coração. Que um estava no terceiro casamento, enquanto o outro era casado há 40 anos. Que o filho de um deles estava preso, enquanto o outro estava estudando em Nova Iorque. Que o candidato a Presidência da República do que se levantou do banco primeiro, tinha sido derrotado pelo candidato do que saiu por último.

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