Havia um grupo grande de pessoas ali amontoadas falando todas elas sobre o mesmo assunto, mas de todos eles, dois ali infiltrados estavam mesmo bem distantes dali. Ele percorria os olhos por entre todas as pessoas, procurando encontrar quem ele queria. E do outro lado da montanha de seres humanos, ela caminhava devagar, erguendo os olhos por trás das pessoas muito muito altas que estavam ali paradas, comemorando alguma coisa sem importância alguma. Mas uma hora, ei, deram de esbarrar um no outro, os olhos discretos dele e os olhos ávidos dela se entremearam e sorriram, sem querer e sem nem entender. Ele tinha um sorriso malicioso brotando nos cantos da boca e ela sabia ler direitinho as entrelinhas por trás de tantas outras entrelinhas e as vontades por trás de todas as outras vontades.

E ela se escondia por detrás de uma cabeça e depois reaparecia e percebia que ele não a havia perdido de vista. E baixava os olhos, sorrindo, pra depois erguê-los e encontrar de novo com os dele, cheios de mistério e de desejo – como eram transparentes os olhos dele! As pessoas erguiam as mãos e estavam contentes e eufóricas, mas ele não tirava os olhos dela, do jeito como se movimentava e como tirava os cabelos do pescoço, deixando-os livre para uma mordida vampírica. Ela sempre faz isso, ele pensava. E virava os cabelos de lado, deixando-os cair sobre o rosto e lhe emoldurar as feições ou proteger o olhar que não queria sair de dentro dos olhos dele. Ela tem os lábios carnudos e um sorriso perigoso. E usa um perfume diabolicamente convidativo. Então ele tentava se conter, pensava em suas obrigações e voltava ao motivo todo de estarem todos ali e voltava a prestar atenção no que estava sendo dito. Ela achava graça, enquanto deixava uma das alças da blusa caírem acidentalmente dos ombros.  O que nós faríamos se não houvesse mais ninguém nessa sala?  Foi pensando, observando o modo como ele se esforçava em se concentrar, focado no que estava fazendo e hiper interessado no assunto  – e foi se aproximando, se aproximando, trocando de lado na montanha de seres humanos festeiros, chegando mais perto e mais perto e mais perto sem sequer ser percebida, como uma cobra a dar o bote. Ele então acordou do transe e percorreu os olhos em busca dela, novamente. Os olhos impacientes percorrendo todo o grupo de pessoas a frente, em busca da mulher que lhe roubou os sentidos, sem encontra-la, como se tivesse sumido, evaporado. Ficou tonto. Mas teve os dedos tocados pelos dedos macios dela, bem perto. Ele virou antes: tinha sentido o perfume. Ela era o canto da sereia, e ele a procurava, tonto, por todos os lugares. Ora aqui, ora ali. Agora, muito perto. Brinda comigo, cochichou no seu ouvido. Ela tinha uma taça de champanhe em cada mão e lhe ofereceu uma delas. O olhar de cigana e a fruta vermelha, na taça: a noite, na realidade, tinha acabado de começar.

(Entendedores se entendem como ninguém).

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