A mammy pensa que já esquecemos de você. E a gente resolveu deixar ela pensar que isso é verdade. Você há de concordar comigo que é FODA quando a gente corria pra porta depois de escutar qualquer barulho no corredor, achando que era você. No fundo no fundo eu sabia, naquele dia que você saiu com as sacolas azuis, que você não ia mais voltar. Olhei no olho da mammy perguntando: QUE PORRA É ESSA??? Ela me recolheu e me abraçou. O que aconteceu daquela porta pra dentro, daquele dia em diante, você não soube mais. Mas quer saber, papi? Eu vou te contar.

A mammy não dormiu mais no quarto e na cama de vocês durante muito tempo. Ela só dormia no sofá. Na primeira semana, ela literalmente não saía do sofá pra nada. Só pra dar comida e água pra gente e pra recolher nosso cocô. Depois, como começou a se achar um trapo humano, ela fazia umas maquiagens lindas mesmo que ficasse em casa, pra que se sentisse mais bonita. Durante muito tempo ela chorou muito, recolhia a gente do chão, abraçava a gente, enxugava as lágrimas nos nosso pêlos. Acho que a coisa começou a melhorar quando ela foi começando a gostar da própria companhia e quando ela tirava as selfies toda maquiada pra postar no Instagram. Começou a se sentir mais feliz e mais bonita e de algum jeito isso foi passando pro lado de dentro também.

O único cara que a mammy trouxe pra casa foi mais de um ano depois e mesmo assim, a gente não foi nada nada com a cara dele (estávamos certos). Foi com ele que ela aprendeu a tomar cerveja.

Aqui na nossa nova casa nós temos um quintão grande e muita gente nova pra amar. Tem a Iris, com quem eu não vou com a cara, pois ela quer tirar a mammy de mim (já o Tom é bem mais bobão e se derrete todo por ela, é um pateta mesmo). Temos uma janela com vista para o mundo – e grades. A mamãe disse que ficamos maloqueiros, porque fazemos escândalo na janela quando passam outros cachorros. Preciso te informar que o Sr Tom virou o maior machão de São Paulo, late o dia todo e se defende de qualquer cachorro (me defende também). Nós conhecemos o Maní, o cachorro do Peru, e o Adolfo, um cachorro idoso que mora com o cunhado do Tio César (lá tem piscina, eu tentei rodeá-la, mas a mamãe percebeu e me tirou de lá).

Agora nós adoramos bordinha de pizza, mais do que tudo nessa vida. E a mamãe mudou a nossa ração para uma ração natural.

Por falar nisso, a mammy percebeu o tanto de lixo que produzia quando passou a morar sozinha e agora está tentando reduzir o seu lixo e também os plásticos (ela tem problemas com plásticos, o que é uma pena, porque eu adoro mordê-los).

Nós temos um edredon que a mammy lava quando nos manda para o pet shop Shopping dos Bichos. Eles entregam a gente pra mammy em uma fiorino. A mammy deixa nosso pelo crescer no inverno e manda tosar a gente no verão. De vez em quando vamos ao Horto Florestal passear e ela deixa a gente sem coleira. Sempre é preciso chamar o senhor Tom, que tem rodinha nos pés e quer sair andando, não sei o que acontece com ele!!!

O Tom não mais aquele cachorro tímido, medroso e bobão – e finalmente a mamãe percebeu que ele é o grande autor de todas as bobagens que acontecem em casa (como comer um batom, ele é burro também! hahahahaha o bigode ficou todo pintado de vermelho). Ele é ciumento e fica me dando bundadas (não sabemos onde ele aprendeu isso). Ele é bem possessivo e quer a mammy só pra ele (a vovó, o vovô, a Iris…).

Embaixo da gente mora o Tio Pedro e nós tentamos nos aproximar dele, mas a mamãe não deixou. Um dia ela me flagrou em cima da cama dele e ficou uma arara!!!

Nossas vacinas estão em dia, mas a mamãe reduziu os antipulgas porque acha que não tem necessidade.

Quando tomamos banho a mammy deixa a gente dormir na cama dela.

A mammy está feliz, mas às vezes ela chora. E quando chora, é sempre a mesma coisa. Vem, me recolhe do chão e afunda os olhos molhados no meu pêlo (já me acostumei). E por isso, papi, eu resolvi te escrever e não demonstrar pra ela que sim, eu ainda lembro do meu papi. Que me ensinou a fazer xixi e cocô no tapetinho. Onde quer que a mammy coloque o tapetinho, eu sempre vou fazer minhas necessidades ali. Que me ensinou a não ter medo de nada, nem de fogos (o Tom cabulou aula quando aprendeu esta lição com quem quer que seja, ele treme mais que vara verde). Odeio sacos de lixo azuis e a mammy sabe porquê. Foram eles que levaram você embora, aquele dia.

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