Caminhei, respirando com dificuldade, até os pés do farol. Ergui meus olhos pro alto. Ele parecia mais alto, intocável. A luz saía e se debruçava sobre o horizonte escuro do mar. Eu entendi naquele momento que foi aquela luz que me atraiu até ali. Eu queria ter forças pra subir até o topo dele e quem sabe me deixar levar por ela, pousar meus pés sobre as águas do mar, como se estivesse em um sonho noturno. Há tempos minhas memórias são noturnas. Respirações, sensações e sentimentos, todos eles são noturnos. Eu então ali aos pés do farol, ofegante, me deixei cair, jogando os joelhos na areia úmida. Todas as visões naquele instante pareceram desfocadas. E irreais. Como se eu tivesse continuado dentro daquele sono.

Apenas virei as palmas das minhas mãos, como se estendesse ao universo. Não sabia exatamente a quem estava me rendendo. Sentia o vento que voltava do mar com hálito salgado sacudir os meus cabelos, e por um instante, senti-me sem peso algum. Deixei a minha vista cansada pairar sobre o nada. Atentei-me ao vai e vem das ondas que tentavam se aproximar. Eu sabia que isso não seria possível. E eu até queria, ser surpreendida pela sutileza daquelas marolas, ou ser levada pela violência daquelas águas mais profundas e escuras e quem sabe de longe então eu ser tocada pela luz do farol. Se é que aquela luz era de verdade, se é que não era uma fantasia, uma visão, uma criação da minha cabeça. Eu sabia que nada daquilo seria possível e eu teria que lidar sozinha com a minha própria sombra, com todas as marcas que eu deixei no meu caminho e com as marcas das quais eu estava tentando me livrar.

Com os dedos comecei a cavar a areia, timidamente. Eu queria sair em outro lugar. Eu queria sair em um dia de sol. Eu queria ser outra pessoa e estar em outro tempo. Ou enterrar ali tudo o que tivesse acontecido até a poucos instantes atrás. E no momento em que a água transbordasse aquele buraco cheio de mim, eu seria outra pessoa e seria fácil erguer os meus joelhos do chão, dar a meia volta e caminhar de volta até qualquer lugar que me conduzisse ao meu novo destino.

Só que nada daquilo era possível.

Passei horas ali, esperando que você viesse até mim. Que colocasse as mãos nos meus ombros e com seu olhar confortável – e com nem uma palavra – me convencesse que aquilo era de fato um sonho noturno. E como todos os sonhos, ia passar. E aquela claridade que eu perseguia era só uma questão de tempo. De esperar.

Acho que quem eu estava esperando não existia mais, havia algum tempo. E eu congelei na minha cabeça a parte boa de você (e de mim). E eu dependia delas duas. Mas aquela nova realidade estava me mostrando que dali pra frente era comigo e o rolar da história dependeria de quem eu decidisse ser. De onde decidisse estar.

Não sei de onde eu aprendi a não ter medo de sentir dor. A incoerência de achar que o dia não ia nascer, que seria sempre aquela escuridão, mas não achar que aquela dor seria interminável. E me apegar tanto a ela como parte da minha cura. E tratá-la com carinho e paciência. Entre, fique aqui no meu peito, saia apenas quando quiser. Um dia ela sai. E quando eu chegava neste instante de consciência, tocando a realidade, com as minhas mãos molhadas pelo rio que saía dos meus olhos, fui surpreendida com aquilo que eu não esperava. A onda me alcançou.

(Lá longe, alguém observava o farol, com uma xícara nas mãos. E viu quando a sua luz, subitamente, apagou).

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