Meu coração lá longe
faz sinal que quer voltar
Já no peito trago em bronze
NÃO HÁ VAGA NEM LUGAR
Pra que me serve esse negócio
que não cessa de bater?
Mais parece um relógio
que acabar de enlouquecer
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá lá fora
cai macio dentro de mim?

Além Alma, Paulo Leminski

Tenho sentido falta de fotografar com minhas câmeras de filme (câmeras analógicas)… tenho sentido falta de passeios vespertinos, com descobertas pelos bairros. Pequenos flagrantes de pessoas e seus momentos anônimos. Observar e ser observada – como fui observada por estes dois gatinhos quando os fotografei. Devia ser 2013. A época dourada. Eu morava em um bairro da região central de São Paulo, meio industrial durante a semana, mas completamente silencioso aos finais de semana. Ruas com cara de ruas de vovós. Casas antigas. Televisores antigos ligados, com um chumacinho de palha de aço na ponta da antena. Cheiro de pipoca ou de chá mate (às vezes de café). O sol dando seu show e essa luz, senhoras e senhores. Essa luz! Nem os felinos resistem à ela.

Autosave-File vom d-lab2/3 der AgfaPhoto GmbH

Nós gostávamos de comprar pão e tomar café da tarde. Se chegava alguém, a gente enfeitava a mesa, assim. Tinha um ar bucólico como se nossa alma tivesse virado do avesso e roubado a cena. Podia jurar que minha avó morava ali. Não ligava. Passávamos o café quentinho, o cheiro pela casa, o barulho de algum passarinho. De manhã a janela amanhecia embaçada, eu podia fingir que do lado de fora não eram chaminés de fábricas, eram qualquer coisa de dentro do desenho da minha imaginação. Que bobagem! Meu cenário já tinha as chaminés das fábricas incluídas, faziam parte. Era o meu cantinho, eu não reclamava. Aprendi a gostar. Prédio antigo, sem elevador, último andar. Paredes descascadas, escadas, escadas. Eu não ligava. Era a roupa que a minha paz andava. O sol desenhava as paredes e pintava sua aquarela pra dentro do dia. Tons frios, tons quentes. A memória acompanha.

Gostava de caminhar e ir até a igreja. Às vezes, o sino tocava. Perdia-se algumas horas antes comendo panquecas de carne ou de frango. Era bom, caminhar pelas ruas, as quadras. Tinha um quintal, que eu colecionava. A fotografia da memória pintou um quadro, a dona da casa nunca desconfiou: o terraço coberto, as roseiras, as portas e janelas antigas. Combinava com um livro, uma xícara de chá, um gato no meio dos pés de alguém sentado na cadeira de balanço. A fotografia amarela com o tempo.

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Na calmaria dos espaços que a lembrança guardou, ainda cabia ser doce e tinha espaço pra delicadeza. Ser delicado não era uma flor que sumia no asfalto e na aspereza dos dias. Eu colecionava mocinhices e perseguia boas histórias. Os olhos quase só viam belezuras e o ar cheirava à mel e erva cidreira.

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Se os tempos antigos guardam os pedaços mais genuínos da minha felicidade, eu topo ficar por lá. Essa modernidade não puxou a minha alma pra fora, como antes acontecia tão fácil. Agora, ela se esconde, ela se esvai, ela se perde. E tenta voltar, num movimento de procura e de auto-reconhecimento. Um dia, quem sabe, nos esbarramos.

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