Bota isso pra tocar enquanto lê (foi o que escutei pra escrever).

Já tem um tempo que eu estou pra escrever este texto. Escolhi o melhor horário, o melhor cantinho – ah, e sem querer nem preparar nada, escolhi também a melhor Melissa, sim, é o melhor de mim quem vai contar um pouco do que aprendi sobre o amor.

A primeira lição que aprendi (daquelas lições bem doloridas das quais se pudesse evitar teria evitado) foi que não existe amor, sem renúncia. Posso te passar uma lista de exemplos… fiquei 5 anos longe da minha família, tendo ficado junto deles por 33 anos, para morar com ele. Nem precisava ser eu… minha mãe saiu de casa novinha e passou boa parte da vida dela longe dos pais. Segurava as lágrimas toda vez que via a mãe chorando quando ela vinha embora da visita. Minha irmã passou pela mesmíssima coisa quando seguiu sua vida com o marido, tendo que se despedir da família e agora só nos vê uma vez por ano.

O meu melhor amigo é casado com uma mulher que não se interessa pela maternidade, agora. Talvez nunca se interesse. O sonho da vida dele é ser pai. Ainda assim, ele está sempre ao lado dela, sempre parceiro, companheiro. Ah, como estas demonstrações de amor genuíno me enternecem! Olha, não existe amor sem renúncia. E olha, não sei se alguém já te contou isso, mas, amar também dói. Uma dor estranha, ninguém quer sentir dor, mas é que a gente não tem escolha. Amar é se jogar num buraco escuro. Você não sabe onde vai dar, mas não há outro caminho a seguir – você não tem escolha.

Ninguém conta pra gente estas coisas quando a gente decide viver com alguém. Que no ano que vem pode acontecer alguma coisa com a pessoa, que vai dilacerar seu coração. Que ele ou ela pode mudar e você não terá outra opção senão deixá-lx ir aonde quiser ir. Que nem tudo vai sair como você planejou e haverá uma, duas, três, quatro, milhares de novas realidades com as quais você terá que se acostumar enquanto o seu sonho ou o seu ideal de vida vai ficando de lado. Por quê?

Por que, heim, por que é que a gente ainda assim, fica?

Por que a gente não resolve, numa manhã nublada e feia de um domingo insosso e mal humorado largar tudo e sair em busca do que a gente realmente queria?

A resposta é previsível. É porque nessa hora nós somos as últimas pessoas em quem realmente pensamos.

Não tem muito o que recomendar, aqui. Só dizer que tu faças o que Fernando Pessoa já disse que era pra fazer, pra gente ser inteiro, ” nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és, no mínimo que fazes”… se um dia o teu amor quiser ir embora, você saberá que fez tudo. Nada ficou por fazer, nem por dizer. Teu coração vai estar limpo, plácido – embora machucado.

É a vida! Amar ainda é a melhor escolha que a gente pode fazer.

Bom, a segunda lição é a seguinte: a gente passa também boa parte da vida esperando pelo graaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaande amoooooooooooooooor, aquele que poderia virar letra de música ou roteiro de filme. Amor além da vida, amor de sei lá o quê, amor de alma gêmea. Se você se identifica com o que eu estou dizendo, eu tenho uma notícia pra dar pra você:

NÃO EXISTE NADA DISSO.

Não existe amor de alma. Existe o MOZÃO. Não existe amor de alma gêmea. Existe amor de carnaval, amor de elevador. Amor do trampo. Do rolê. Não existe o cara do filme que foi se declarar com várias folhas A3 na porta da casa da Keira Knitley. Existe o cara que é cheio de defeitos, que talvez tenha aquela barriga de cerveja, que ronca à noite, que fica de mal humor se o time perde, que esquece da data do aniversário de namoro ou casamento, que esquece de fazer o que você pediu, que ainda não lavou a louça quando você chegou em casa, duas horas depois de ter pedido essa “ajuda”. Existe esse cara que está tentando ser um cara melhor pra você e reaprender coisas contrárias ao que ele escutou a vida toda. Que agora não vai ter ninguém pra lavar a roupa dele – ou fazer a comida, no máximo uma divisão de tarefas. Que homem pode chorar, sim, que você pode fazer as mesmas coisas que ele. Existe este cara que chega a ser inseguro e se achar um babaca, às vezes, de tanto que você é incrível pra ele. Esse cara não é o cara do filme. Mas é quem ama você.

Eu estava pensando isso na volta do almoço, hoje. Durante muito tempo eu esperei o cara isso e aquilo, que entendesse meu jeito, que lesse os textos que escrevo ou elogiasse as fotos que eu tiro. Que fosse ao Museu comigo. Nós somos assim estas moças idealizando a felicidade, quando ela está nos detalhes mesmo mais bestas, tipo o chulé ou a unha encravada. Ou ele fazer o maior esforço do mundo pra ler o seu texto, tá lindo amor! – diz ele, mesmo não gostando de ler.

Eu sorri, quando me dei conta. O amor é mais simples.

Anterior Posterior

Deixe o seu recado!

voltar ao topo