Oi Mel,

Tenho observado você, daqui de longe. Às vezes eu me surpreendo por um dia ter sido você e agora eu estou tentando te procurar no meio da atual bagunça, como quem procura uma agulha num palheiro. Quando você existia em mim, eu achava que a vida era muito difícil. Não sabia o que fazer com tanta intensidade e com tanta vontade – sobrava tudo isso e faltava chão. Veja como a vida é engraçada, menina, agora eu acho que sobra chão e falta vontade e intensidade. Acho que a vida continua difícil, agora por ser dura demais e ter me roubado metade (ou mais da metade) do frescor que eu tinha.

Ah, é por isso que eu me encanto tanto com você. Você não tinha medo do que você sentia e quando você tinha medo, você  o enfrentava. Se você fugia é porque alguma coisa maior estava te roubando a atenção. Você sabia dar um passo no escuro, e não tinha medo de pisar sem saber se tinha por onde ir. Você encarava o desconhecido como uma esfinge e um enigma pra adivinhar.

Você sempre adivinhava.

E essa coisa boa de acreditar em todo mundo e ter todas as certezas do universo de que tudo vai acabar sempre da melhor maneira possível e que todos os caminhos da gente convergem para um destino feliz. Essa mania de enxergar girassóis em tudo e tirar o melhor das pessoas. E esse charme de simplesmente não perceber as coisas mais importantes debaixo do seu nariz (às vezes isso é um golpe de sorte) de não perceber quando tinha alguém apaixonado por você, até que a pessoa dissesse.

Você vivia no mundo da lua e tinha gente que queria subir pra ficar lá com você. É, você não percebia. Era preciso sempre te contar!

Não, não tem ninguém apaixonado por você agora – e talvez seja este o problema. O problema é tudo estar normal demais. Chato demais, opaco demais, silencioso demais. Eu preferia o seu barulho, as suas confusões, o seu êxtase, os seus enganos. Não sei, é verdade, se o meu corpo daria conta de tanta adrenalina nos tempos atuais (que quando não tinha, você criava).

Eu tenho saudades de como você transformava cada instante bobo em cena de filme. E de com quanta facilidade você fazia isso, criar momentos incríveis e fazer as pessoas se sentirem especiais. Quanta poesia tem passado por mim, agora, sem que eu perceba? Será que eu ainda sei fazer isso?

Tenho buscado ver o vento passar. E no meio deste silêncio escutei a sua voz doce, que todos diziam ser tão tão doce, “mais doce que açúcar”, tentando me puxar de volta para um lugar não tão confortável mas o lugar onde devo estar, o lugar onde eu fui a melhor pessoa, a melhor Mel – e a mais feliz. Onde eu dê lugar pra você ressurgir, finalmente, e voltar a encantar todo mundo com a tua simplicidade brejeira e mostrar pra tua versão mais velha que, na verdade, nem é tão difícil assim continuar sendo a mesma menina de sempre.

(vou continuar tentando, eu te prometo).

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