Pedro, Pedro Bó

Hoje comecei o regime militar. O meu regime militar. Para quem conseguiu acordar às sete horas sem reclamar, começou muito bem. Antigamente eu acordava, mas de cara feia. Ia para o banho, me olhava no espelho, aquela cara de gente que não quer ser gente e sabe que naquele minuto – olhando para o espelho, descabelada – não era gente… Agora não. Agora eu acordo, abro a janela e olho o tio do prédio da frente tomar café com leite olhando pela janela. Ele é o único executivo que eu conheço que trabalha sem camisa. Até tem cara de executivo, mas quando tira a camisa… bom, eu não vou dizer com que cara ele fica.

Fui tomar café e consegui comer uma torrada. Eu não acho que torradas sejam coisas legais de se comer, mas tinha torradas e eu comi as torradas. Sou capaz de comer uma torrada. E comi com geléia de figo. Fui capaz de comer a geléia que mais odiava até algumas horas atrás.

Pedro Bó agora estou na aula de Psicologia. Irônico, isto, não? Meu professor vira e mexe fica olhando para a cara dos alunos, um por um, e quando chega na minha cara, fica uns cinco minutos perdido nos meus olhos. Se está apaixonado por mim? Deve ter achado o ratinho que ele procurava para as suas experiências. Aquela história do ratinho tocar uma coisinha na gaiola e toda vez que toca sai aguinha na boquinha dele. Vai ver ele acha que eu sou parecida com o ratinho. E às vezes sou mesmo, faço tanta coisa pensando, não é mesmo, fico pensando horas e horas se devo ou não devo fazer determinada coisa. O ratinho fica horas pensando como é que vai conseguir beber água. Estou escrevendo para você, já sei a matéria de trás para frente, e psicologia, você sabe, meu bem, sempre foi o meu forte. Dou uma risada alta, uma gargalhada igual à da Viúva Porcina, e meu professor baixa os óculos para o nariz. Eu faço cara de ratinho e ele volta a escrever. Trouxe uma lata de cerveja, e quem foi que disse que eu não gosto de cerveja? Cerveja é a melhor coisa do mundo, é um ícone, como bunda é ícone, como funk é ícone, como Caetano e Gil são ícones, como eu sou ícone, e cerveja me dá uma cara de ícone. Tomei no intervalo, fui no banheiro, subi no vaso sanitário para ninguém ver meus pés e mandei ver. Depois comprei o pirulito que deixa a língua azul e pedi para o Caio me dar um beijo. Ele deu. Ele sempre dá. Eu é que nunca dou. Desta vez eu dei. O beijo.

Vim de bicicleta, e vou embora de bicicleta, claro, mas antes quero passar na biblioteca do centro, e pegar um livro sobre Neurolingüística, Astronomia e Física e quero treinar minha capacidade de ler três livros ao mesmo tempo, mesmo que sejam os piores assuntos possíveis. Saindo da biblioteca encontrei o Faísca, aquele babaca que um dia eu gostei, ele realmente tem a cara que eu tinha quando me olhava no espelho de manhã. A diferença, Pedro Bó, é que eu mudei, e ele continua o mesmo. Eu mudei e estou mudando, porque agora quero ser normal, quero ser igual a todo mundo, quero gostar de samba, quero fazer cruzadinhas, quero fazer sexo sem amor, quero tomar banho de cinco minutos, quero tirar fotos nua, quero chupar pirulito azul, quero fazer tudo isto. E fiz quase tudo uma noite destas. Fiz. Encontrei o pessoal (meu pai diz patota) na lanchonete grunge que um cara inaugurou estes dias, ele se senta do meu lado. Diz que eu sou uma menina boa pinta. Ele também é, apesar de se vestir sempre de preto, acho tão clichê este negócio de só se vestir de preto… Bom mesmo é ser grunge e usar roupa colorida… mas eu estou saindo com ele, está sendo engraçado. Outro dia batemos um papo-cabeça sentados numa tumba. Ele me faz achar o cemitério o lugar mais divertido do mundo! Fiz uma piada, coloquei a mão na bunda dele, e quando ele me perguntou o que eu estava fazendo com a mão na bunda dele, eu disse que minhas mãos estavam no bolso. A reação dele eu nem vou falar senão fico com vergonha de estar saindo com ele. Ah, Pedrinho, e eu achando que o único Bó era você. Ele é um grunge bó.

Outra noite fomos para o bar dele e eu dancei em cima da mesa, mas não tinha música, na maioria das vezes não tem música, por lá, é tudo muito sinistro, mas eu faço bastante barulho. Subi em cima da mesa e dancei até me acabar, depois cantei Wish you were here em espanhol. Depois veio um campeonato, quem conseguia rir mais sem motivos.

Minha barriga doía. Fui para casa me sentindo outra, um papel novinho, vitoriosa, diferente, atrevida. Me olhei no espelho e comecei a chorar.

Não dá certo esta coisa de mudança, Pedrinho. Eu sou bó também.

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Nota da autora: o texto é de 1999 (eu não tomava cerveja rs).

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