Parece que uma das tarefas mais difíceis para alguém é mudar a perspectiva. Uma coisa muito simples e que preservaria muito a nossa saúde mental e emocional, evitaria várias tretas, facilitaria mesmo muitas coisas, mas curiosamente por algum motivo não nos mostramos dispostos a fazê-lo. Pra que isto acontecesse, primeiro precisaríamos nos desfazer da ideia de que temos a absoluta razão e estamos certos. Precisaríamos tentar vestir os sapatos de outra pessoa, em outra realidade, para que pelo menos compreendêssemos melhor o outro lado.

Existem outros lados.

O universo foi generoso, comigo, porque me possibilitou transitar por todos os lados: O lado das pessoas mais humildes, o lado de quem tem grana e o de quem tem MUITA grana (rs), o lado de quem aprende a lidar com as diferenças porque em seu ofício – o teatro – o ser humano é o centro de tudo (sou atriz formada). Isso me fez conseguir olhar as coisas de outras perspectivas além da minha. Acredite: isso facilita muita coisa.

E acredito que ficaria tudo mais fácil se a gente se lembrasse disso: existe um outro lado. Existem outras opiniões, outras visões, outras vivências, outras experiências e outras realidades. A nossa não é única e nem exclusiva. Exemplos não faltam. Política, é um deles.

Coloque-se no meu lugar, uma jovem de 20 e poucos anos que ganhava R$800,00 em folha de pagamento e que mesmo assim conseguiu comprar um ótimo apartamento em um lugar incrível, por conta das taxas mais baixas do Programa Minha Casa Minha Vida – pra entender porque um dia eu fui grata ao governo Lula. Quando alguém que ganhasse isso conseguiria comprar uma casa?!

Coloque-se no lugar de um empresário que paga milhares de taxas e impostos sobre sua receita, para entender por que ele defende a Reforma Trabalhista. Coloque-se no lugar de um chefe de família que trabalhou a vida toda, filho de pedreiro e de uma dona de casa, que construiu com trabalho e esforço tudo o que ele tem, para entender porque ele se irrita tanto com programas assistenciais ou cotas. Mas, coloque-se no lugar de uma mulher negra, periférica, que passa o tempo todo tentando ficar com a cabeça pra fora d´água e portanto teve poucas oportunidades e chances na vida, para entender porque as cotas são importantes. Ou do preconceito que eles ainda sofrem em todos os lugares, para entender porque é importante falar sobre racismo e sobre representatividade.

Coloque-se no lugar da esposa do empresário que foi assassinado a sangue frio na frente do filho de 5 anos, no nordeste (um latrocínio), para entender porque ela acha que aquele que não dizemos o nome (#elenão) é a melhor opção para Presidente do Brasil. Coloque-se no lugar das minorias, que conquistaram alguns pequenos direitos, seu lugar ao sol com tanta luta, para entender por que o medo de tudo regredir de repente, por conta de uma gestão fascista e ditatorial que só vai alimentar ainda mais o ódio e a intolerância com que eles já lidam todos os dias.

Coloque-se no lugar de uma mulher, de quem você que está lendo este texto saiu, tendo que lidar com assédio, desrespeito, humilhações de todos os tipos e agora o ódio que leva nosso território ser um dos mais altos em taxa de feminicídio, pra entender porque ela não pode engolir um candidato que fomente ainda mais esta intolerância, este ódio e este desrespeito.

Coloque-se no lugar das pessoas que perderam parentes ou entes queridos torturados e assassinados pela ditadura militar, que jamais receberam os corpos dos seus para que os pudessem velar, ou que presenciaram as mais cruéis e desumanas torturas, para entender por que não é legal dizer por aí que aquela era uma época boa.

Coloque-se no lugar de um judeu, que sabe que se tivesse vivido na epoca da Alemanha Nazista teria sido exterminado junto com outras milhares de pessoas que foram mortas pelo simples fato de um louco achar desejar a hegemonia racial, para entender por que a gente deve tomar cuidado com o que fala, especialmente se somos candidatos à um cargo político e como é perigoso espalhar racismo e preconceito por aí.

Não precisamos enfrentar as diferenças com discussões e provocações. Nós podemos fazer isso de uma maneira mais gentil e empática, fazendo algum esforço para se observar as situações de uma outra perspectiva. Fazer isso não fará necessariamente com que mudemos de opinião, mas possibilitará com que a gente entenda as razões que motivam as outras pessoas a dizerem o que dizem, pensarem o que pensam, agirem da maneira que agem – e provavelmente conseguiremos conversar e argumentar melhor ao expor nossas ideias. Isso é muito melhor do que a provocação, a violência de qualquer tipo.

Isso traz resultados.

Se nós continuarmos a transformar a Política do Brasil em um campo de futebol, em um FLAXFLU, o tempo vai passar e continuaremos estagnados no mesmo lugar. Se não aprendermos a empatia, se não tentarmos compreender o outro lado, dia após dia nós teremos menos amigos, porque vamos fechando o cerco e ficaremos rodeados das poucas pessoas que pensam igual. E todas as pessoas queridas e interessantes foram sendo deixadas pelo caminho porque pensavam diferente, porque eram petistas, psedebistas, porque queriam votar naquela pessoa lá.

Já parou pra pensar o que a leva pensar assim?

Precisamos, urgentemente, aprender a olhar as coisas sob outra perspectiva. Eu acredito naquele ponto no meio do caminho, onde todas as pessoas com suas diferenças, experiências e pensamentos distintos possam conviver e se completar juntas, em paz.

A foto utilizada é do Anthony DeRosa

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