Quando você saiu, esqueceu de levar o casaco. Deixou as chaves em cima do aparador. Deixou as portas abertas, as luzes acesas – e eu interpretei isso como quem quer sair rapidamente de um lugar.

Incrivelmente o tempo foi passando e eu guardei tudo, guardei as chaves, fechei as portas, apaguei as luzes – mas tudo soa igual, exatamente do jeito que você deixou. Parece que está tudo preparado para quando você voltar.

Neste meio tempo eu me distraí com coisas irrelevantes, aprendi a olhar a chuva e pesquisei outras bandas novas. Entendi que eu não tenho, mesmo, talento pra cantar. Aprimorei minhas coisinhas e aprendi a reduzir o lixo. Deixei o açúcar de lado e peguei gosto por correr. Correr por aí. Tenho cuidado de mim e de quem está comigo.

E é como se todos os dias eu fechasse as portas, apagasse as luzes, guardasse as chaves. Parece que eu quero fazer isso todos os dias, mas ao mesmo tempo quero tudo novo: e as paredes com cores novas e novas plantas e objetos novos e mais luminosidade dentro de casa. A verdade é que está tudo igual. Exatamente do mesmo jeito que estava quando você saiu.

E às vezes uma ou outra nota, uma ou outra palavra, um ou outro lugar dentro e fora de mim, me lembram de você.

E às vezes vejo nos nossos olhos o seu nome escrito e é como se a gente fingisse não saber ler.

E às vezes a porta bate – e a gente acha que é você.

Mas tem sido mesmo, só o vento, ou o rastro de alguma coisa tentando sair ou tentando ficar. E o tempo segue, escrevendo seu poema no vazio dos dias.

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