Eu fiquei muito assustada durante as eleições presidenciais, quando percebi que o Facebook estava sendo utilizado como uma ferramenta de manipulação – e em perceber como esta estratégia estava funcionando. Não me senti à vontade para continuar dentro desta bolha, depois deste episódio. Também contou muito ter contato com a crueldade velada dentro de perfis conhecidos – e próximos – e constatar como este tipo de comportamento ganha força por trás da falsa segurança que a internet proporciona. As pessoas pensam que a internet é uma terra de ninguém, um país sem reinado, mas a real é que ninguém está a salvo de ser pego se cometer qualquer tipo de agressão, pela internet.

Isso foi o ponto inicial das minhas reflexões sobre como as redes sociais estão construindo um MUNDO PARALELO, um MUNDO DE MENTIRA – mas que, por tanto que as pessoas têm contato com elas o tempo inteiro, elas tomam como uma verdade. Todos nós ficamos conectados boa parte do nosso tempo e perdemos o limite entre o que é realidade e o que é um fragmento de realidade. De modo que tudo o que vemos no Instagram e no Facebook nos soa real – e o perigo acontece quando começamos a parametrizar a nossa vida de acordo com aquilo que vemos, fazendo comparações.

Nós não postamos na rede nossos momentos ruins, postamos só os bons. Então quando eu começo a me comparar com uma outra mulher que tem uma família Doriana, me sinto mal.

Pior ainda: os algoritmos da internet são feitos para nos colocar em contato com aquilo que nos interessa, apenas. Então vejo passeando em frente aos meus olhos produtos de sites por onde estive, pessoas que são as que mais sigo e com quem mais tenho engajamento, só o conteúdo que mais me interessa aparece na minha timeline. As consequências disso: não temos mais a capacidade de lidar e interpretar as diferenças. Estamos nos fechando em aldeias de acordo com semelhanças de pensamento e tudo o que é DIVERSO e DIFERENTE fica do lado de fora.

Como a internet – roubou a cena e as pessoas lêem cada vez menos (livros e jornais), elas FORMAM SUAS OPINIÕES fundamentando-se naquilo com que têm contato nas redes sociais. Só que em nossas aldeias sociais só temos contato com UMA PARTE DA REALIDADE e não com a realidade como  um todo. Só vemos um lado de uma história, não vemos todos os lados.

Querem outro agravante? O tipo de conteúdo que vemos nas redes sociais são conteúdos para consumo rápido. Geralmente não clicamos e lemos o artigo, a reportagem. O que nós fazemos é passar o olho na chamada da reportagem e, ah, legal, eu concordo com isso então vou passar para a frente: compartilho. O que isso ocasiona? As pessoas estão perdendo a capacidade de interpretação e processamento de informações. O que seria o normal, ao invés do que eu descrevi acima, é: leio um texto, interpreto este texto, processo estas ideias com as minhas próprias e com outras coisas e só então eu formo a minha opinião e tenho agora material REAL para poder ARGUMENTAR.

Mas na maior parte do tempo, não é isso que acontece.

A internet nos incentiva ao consumo rápido, pois perdemos a paciência para ler, preferindo imagens, vídeos. De modo geral isso tem nos tornando mais ansiosos e imediatistas – o que está causando impacto em várias áreas da nossa vida. E é este só um dos motivos pelos quais nós vemos casais e grupos de amigos olhando seus celulares em vez de olharem e conversarem uns com os outros quando estão em grupo.

Eu vi esta semana: um casal esperando a sua comida, na praça de alimentação de um shopping. Estavam de mãos dadas. Ele observava a namorada, que estava olhando o Facebook. Esse é um caminho sem volta, para os relacionamentos e para as relações humanas.

A internet é um caminho sem volta. As redes sociais são um caminho sem volta. Nós vamos substituir as relações humanas, genuínas e simples, pelas relações virtuais e baseadas no mundo virtual, dada a importância e relevância que o mundo virtual tem em nossa vida e em nossas relações.

Isso tende a piorar se não nos percebermos e não estabelecermos limites – porque a Inteligência Artificial está aí para nos manter ainda mais presos à facilidade e ao fascínio que ela traz – e que vai trazer – para as nossas vidas e nossas rotinas. O filme “She”, com o Joaquin Phoenix, ilustra bem o que eu estou querendo dizer e quase que materializa os meus receios.

Há um tempo atrás eu decidi que em pelo menos um dia da semana eu vou sair sem celular e aproveitar 100% do meu tempo offline. Queria evitar com isso , este vício de ter que procurar e consultar o celular o tempo todo, inclusive enquanto estivesse conversando com alguém ou enquanto estivesse caminhando (acho absurdo as pessoas andando no metrô e olhando Facebook e WhatsApp ao mesmo tempo)- além de retomar o contato e o INTERESSE pelas coisas simples da vida. Hoje em dia, depois das 18h00, quando desligo o computador e vou ficar com a minha família , deixo o celular em casa.

É como em um show, que nós vamos e em vez de curtirmos o show, ficamos gastando a nossa atenção em FILMAR e FOTOGRAFAR o show durante todo o tempo, ou seja: não estamos imersos naquele momento e curtindo o show 100%. Se você perguntar detalhes do último show do U2 eu não saberei responder justamente porque estava com o celular na mão o tempo inteiro.

Isso me lembra um amigo que tive e que brigava comigo pela necessidade que eu tinha de guardar fotos e ficar fotografando tudo o tempo todo. Ele dizia assim: Mel, tudo o que você precisa está na sua memória. Ele tem razão! Com isso não estou desqualificando as nossas lembranças fotográficas e visuais, mas chamando a atenção para nossa tendência em supervalorizá-las em detrimento de estarmos 100% envolvidos naquilo em que estamos vivendo. A história que brota das nossas memórias é mais rica do que a história que vai depender de um registro imagético.

Por isso me afastei do Facebook. As pessoas mais proximas sentem falta e me cobram a presença, dizem que sentem falta dos meus textos. Mas eu não acho que valha a pena. Não acredito mais que Facebook e outras redes sociais possam me trazer qualquer benefício – muito pelo contrário. Não saí definitivamente porque tenho a fanpage de fotografia e tenho os textos compilados na hashtag #textosdamel.

Recomendo a todos os meus contatos que reflitam sobre quanto tempo estão perdendo na internet e quanta relevância têm dado às suas redes sociais, que trocas estão fazendo enquanto passam boa parte do tempo ali . Que tipo de julgamentos têm feito em relação aos seus semelhantes com base no que tem lido na web e quanto do que mostro de mim é verdade?

É claro que não dá pra radicalizar, porque se eu consigo ter contato com a Svetlana, minha prima da Lituânia e com as minhas tias velhinhas, devo isso às redes sociais. O problema é quando a gente perde o controle – e todo mundo parece estar perdendo o controle.

Ainda não há outro remédio para a ignorância, o desconhecimento – e a solidão – que não sejam os livros, as salas de aula, os debates e as interações sociais, olho no olho. Bem, pelo menos é nisso que eu acredito. 🙂

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  • camyli alessandra da silva 25 de março de 2019

    Oi, Mel!
    Fiquei o primeiro turno bem quietinha somente “estudando” os candidatos a presidência… E o que o pessoal escrevia nas redes sociais que já estava pegando fogo cheio de TEXTÃO. Queria escutar opiniões diferentes/ iguais a minha para assim tirar uma conclusão em saber em quem votar. O resultado, foi frustrante “ninguèm segurou realmente a mão de ninguèm…” e todos ficaram dentro das suas bolhas.

    bjos.

    • Melissa 25 de março de 2019

      Exatamente, querida. A expressão era linda, ninguém solta a mão de ninguém, mas na prática pra isso acontecer é preciso transpor os nossos próprios interesses e pensar mais no coletivo. Um exemplo disso era o grupo de mulheres contra Bolsonaro. Se todas nós tivéssemos inteligentemente articulado nosso voto em uma pessoa só, abrindo mão dos nossos próprios interesses e opiniões e pensando no coletivo, provavelmente teríamos conseguido evitar esse desastre, com nossa força e união. As vezes muito barulho não muda um país. rs Obrigada pelo comentário!

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